Em Alagoas, o empreendedorismo tem se tornado uma alternativa crescente para a geração de renda, com iniciativas como o 'Delícias na Caixa' de Izabele Amaral, refletindo um movimento de formalização de pequenos negócios na região.
Dados da Junta Comercial de Alagoas indicam um aumento de 23,44% na abertura de empresas em 2025, mas também um crescimento no número de encerramentos, evidenciando a necessidade de políticas públicas que apoiem a sobrevivência e o crescimento dos empreendimentos.
Embora programas de crédito e capacitação tenham sido implementados, especialistas alertam para a falta de integração entre as iniciativas e a descontinuidade das ações, sugerindo a necessidade de um ecossistema empreendedor mais coeso e sustentável em Alagoas.
Logo cedo, Izabele Amaral já estava de pé preparando os primeiros doces e salgados do dia na cozinha de casa, no bairro Ouro Preto, em Maceió. Depois de meses de planejamento, ela formalizou o "Delícias na Caixa" para complementar a renda da família. A história dela representa um movimento cada vez mais comum em Alagoas: milhares de pessoas apostando no empreendedorismo como alternativa de renda e desenvolvimento.
Mas abrir uma empresa é apenas o primeiro passo. O desafio agora é outro: criar condições para que esses negócios sobrevivam, cresçam e gerem emprego. É nesse ponto que entram as políticas públicas de fomento ao empreendedorismo, apontadas por especialistas, gestores e empresários como o principal caminho para fortalecer os pequenos negócios no estado.
Nos últimos anos, Alagoas ampliou programas de crédito, capacitação e simplificação do ambiente de negócios. Iniciativas como o Banco da Mulher Empreendedora, as linhas de crédito da Desenvolve Alagoas em parceria com o Sebrae e programas de inovação como o Simbora mostram que o empreendedorismo passou a ocupar espaço na agenda pública.
Os números ajudam a explicar essa movimentação. Dados da Junta Comercial de Alagoas (Juceal) mostram que, em 2025, o estado registrou crescimento de 23,44% na abertura de empresas em relação ao ano anterior. Entre os Microempreendedores Individuais (MEIs), os novos registros saltaram de 27.219 para 34.396.
O avanço demonstra que o ambiente para iniciar um negócio se tornou mais acessível. No entanto, a mesma estatística revela um desafio que ainda acompanha o empreendedorismo alagoano: no mesmo período, o número de empresas encerradas também cresceu, passando de 22.643 para 26.380 baixas.
Mais do que uma contradição, especialistas enxergam nesses números um sinal de que o debate sobre empreendedorismo precisa ir além da abertura de empresas e avançar para a construção de políticas públicas permanentes capazes de acompanhar o empreendedor após a formalização.
〉 O QUE TEMOS PRA "HOJE": CRÉDITO, CAPACITAÇÃO E APOIO AO EMPREENDEDOR

A foto de Kelma Cabral segurando o projeto do carrinho que pretende levar para a orla de Maceió representa exatamente o impacto que uma política pública pode ter sobre um pequeno negócio.
Depois de fazer rifas e buscar alternativas para ampliar as vendas dos sanduíches naturais da marca Natural's Mix, ela conseguiu acesso a R$ 10 mil por meio da linha de crédito do Fundo de Aval para as Micro e Pequenas Empresas (Fampe/Sebrae), em parceria com a Desenvolve Alagoas.
"Fiz até rifa para comprar um carrinho, mas não consegui arrecadar o suficiente. Esse crédito ajudou demais", conta.
A história se soma à de Masigleide Bittencourt, que investiu na estrutura da própria confeitaria após ser contemplada pelo Banco da Mulher Empreendedora.
As duas experiências ilustram o potencial das políticas públicas de crédito para transformar pequenos negócios em fontes estáveis de renda.
Desde a criação, o Banco da Mulher Empreendedora já beneficiou 5.869 mulheres em Maceió e investiu mais de R$ 6 milhões diretamente na economia local.
Já a parceria entre Sebrae e Desenvolve Alagoas contabilizou centenas de operações de crédito para micro e pequenos empreendedores. Além disso, 78 Salas do Empreendedor espalhadas pelo estado funcionam como pontos de apoio para empresários em diferentes municípios.

〉 MAIOR DESAFIO É TRANSFORMAR PROGRAMAS EM ECOSSISTEMA
Apesar dos avanços, especialistas afirmam que os programas ainda funcionam de forma isolada.
Para o professor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Augusto Ferreira Ramos Filho, a principal fragilidade das políticas públicas voltadas ao empreendedorismo não está na ausência de iniciativas, mas na falta de integração entre elas.
Segundo ele, programas municipais, estaduais e federais operam com regras, cadastros e exigências próprias, obrigando o empreendedor a percorrer diferentes caminhos para acessar crédito, capacitação e assistência técnica.
"O empreendedor precisa ser quase um contador e um advogado para navegar nesse labirinto", resume.
Na avaliação do pesquisador, o estado precisa construir um fluxo integrado, no qual capacitação, crédito e acompanhamento caminhem juntos.
"Uma fragilidade que atravessa todas as políticas públicas de empreendedorismo, seja em Alagoas ou no Brasil, é a falta de integração entre as três esferas do governo. A Prefeitura de Maceió cria o Banco da Mulher, o Governo Estadual lança o Simbora para as startups e o Governo Federal tem o Pronampe. Cada um com um cadastro diferente, exigências diferentes, prazos diferentes, taxas diferentes”, ", afirma.
“O que falta é o que eu vou chamar de ecossistema alinhado por policy mix [mix de políticas], ou seja, combinar a capacitação que está lá no Simbora, mais créditos do Banco da Mulher e do Desenvolve, mais assistência técnica do Sebrae em um fluxo único para o empreendedor. Então hoje ele precisa correr atrás de cada peça em separado”, reforça.

〉 POLÍTICAS PÚBLICAS PRECISAM TER CONTINUIDADE
Outro desafio apontado pelos especialistas é a descontinuidade das ações. Augusto Ferreira argumenta que muitos programas surgem a cada gestão, mas poucos permanecem tempo suficiente para gerar resultados estruturais.
"Todo ano entra um novo programa, mas os mesmos problemas: baixa sobrevivência dos negócios, informalidade, falta de escala. Assim, o empreendedor vai virar cobaia de projetos que começam, param, depois outro gestor ressurge com um novo nome. Sem continuidade, não construiremos um ecossistema. Nós vamos construir eventos”, alerta o especialista.
Além disso, ele destaca a ausência de monitoramento dos resultados após a concessão de crédito ou a participação em programas de capacitação.
Para ele, políticas públicas modernas precisam acompanhar indicadores como geração de empregos, faturamento, sobrevivência das empresas e expansão dos negócios.
〉 SEBRAE: O AMBIENTE IMPORTA TANTO QUANTO O EMPREENDEDOR
A gerente da Unidade de Ambiente de Negócios do Sebrae Alagoas, Íria Almeida, compartilha a avaliação de que o próximo passo para o estado é consolidar um ecossistema empreendedor integrado.
Segundo ela, apoiar pequenos negócios não significa apenas liberar crédito ou facilitar registros empresariais.
“O próximo passo é consolidar um verdadeiro ecossistema empreendedor em Alagoas, integrando educação empreendedora, inovação, crédito, compras públicas, simplificação, formação profissional e desenvolvimento territorial em uma estratégia contínua”, avalia Almeida.
“O empreendedor ainda enfrenta desafios estruturais importantes. O empreendedorismo não depende apenas do esforço individual. Nenhum negócio cresce sozinho. O ambiente importa muito. Por isso falamos tanto hoje em ecossistema empreendedor. Um território mais inovador e desenvolvido é aquele onde governo, escolas, universidades, setor produtivo, instituições financeiras e entidades de apoio trabalham de forma articulada para gerar oportunidades e fortalecer os pequenos negócios”, defende.

A gerente Sebrae reforça a teoria do professor Augusto Ferreira. “Falta articulação entre os diversos atores que influenciam o desenvolvimento econômico. Acredito que as políticas públicas mais modernas serão justamente aquelas capazes de conectar desenvolvimento econômico, educação, inovação, inclusão produtiva e fortalecimento dos territórios”, afirma Íria Almeida.
〉 PODER LEGISLATIVO : MAIS HOMENAGENS DO QUE PROJETOS
Embora o empreendedorismo apareça frequentemente em homenagens e datas comemorativas na Assembleia Legislativa, o número de projetos estruturantes ainda é reduzido. Uma pesquisa no site da Assembleia Legislativa mostra que o empreendedorismo é explorado por propostas e projetos. O tema é muito mais motivo de comendas e homenagens do que de matérias legislativas. Dezenas de comendas já foram concedidas a empreendedores.
Entre as propostas apresentadas recentemente estão iniciativas voltadas para educação financeira nas escolas, empreendedorismo digital para jovens e capacitação tecnológica para pequenos empresários.
Autor de uma dessas propostas, o deputado Mesaque Padilha defende que o Legislativo pode contribuir mais para a construção de políticas públicas voltadas ao setor.
“Sem dúvida. O empreendedorismo tem um papel fundamental na economia alagoana, especialmente na geração de empregos e no fortalecimento dos pequenos negócios. O Legislativo pode, e deve, avançar mais em propostas estruturantes, que vão além de homenagens e reconhecimentos. É importante criar políticas públicas que facilitem o ambiente de negócios, ampliem o acesso à capacitação e incentivem a inovação”, afirmou em entrevista ao TNH1.
〉 IBGE: 60% DAS EMPRESAS FECHAM ANTES DE COMPLETAR 5 ANOS

A facilidade para abrir uma empresa já é uma realidade. O desafio agora é garantir que negócios como o de Izabele, Kelma e Masigleide tenham condições de crescer, gerar renda e permanecer de portas abertas.
E o desafio não é fácil, como mostram os números do IBGE. Cerca de 6 a cada 10 empresas que nascem no país não conseguem sobreviver após cinco anos. O dado é da pesquisa Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo.
O ciclo de vida curto é mais evidente nas empresas de pequeno porte, que enfrentam desafios como alta competitividade, falta de gestão e dificuldades financeiras.
A pesquisa analisou as taxas de sobrevivência das empresas, mostrando que, das empresas nascidas em 2017, apenas 37,9% estavam ativas após cinco anos. A taxa de sobrevivência dessas empresas foi de 76,2% em 2018, caindo para 59,6% em 2019, 49,4% em 2020, 42,3% em 2021 e 37,9% em 2022.
A história da cafeteria Baggo Baggo, que funcionava no bairro de Ponta Verde ilustra bem os dados do IBGE. A empresa foi aberta em 2024 mas precisou fechar as portas este ano.
“Dificuldade de acesso a empréstimo e falhas no planejamento financeiro comprometem o capital de giro e são hoje o que chamamos de pilares do fechamento das empresas”, afirma Katheryne Wanderley, proprietária da feteria que funcionava no bairro de Ponta Verde.
“O alto custo de manutenção envolvendo impostos, aluguel, folha de pagamento e energia. Vemos muitos projetos incentivando a abertura de empresas, mas poucos para ajudar o empresário a manter a empresa aberta. A gestão pública poderia investir mais em incentivos ao empreendedor”, sugere a empreendedora.
A cafeteria engrossa uma estatística mostrada pelos números da Juceal. Se a abertura de empresas avançou, a extinção também cresceu. Entre 2024 e 2025, o número de extinções de empresas passou de 22.643 para 26.380, sendo 18.730 apenas de MEIs.

O presidente da Juceal, Thiago Braga Calheiros, pondera que o estado reduziu a burocracia para a extinção das empresas, o que, segundo ele, influencia no crescimento de encerramentos.
“A Junta Comercial também tem a obrigação de oferecer o melhor ambiente possível para o fechamento de um negócio, o que anos atrás era um processo demorado, burocrático e que gerava gastos. Hoje, para fechar uma matriz de empresário individual e sociedade limitada, não é cobrada taxa. Não são cobradas certidões negativas. Então, além de ser gratuito, o processo de baixa é feito de forma 100% digital. Isso mudou a cultura em relação ao fechamento de negócios, o que explica também o aumento ano a ano. O empreendedor não fica acumulando dívidas e pode promover a baixa sem grandes problemas”, explica Calheiros.
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