Contextualizando

O hexa não veio... O Brasil volta a encarar o próprio Brasil

Em 6 de Julho de 2026 às 18:00

O sonho do Hexa acabou, desta vez na derrota de 2x1 para a Noruega.

Com ele acabou também o festival de desmandos que marcou mais uma vez a Seleção Brasileira.

A começar de convocações erradas, para atentder às conveniências de patrocinadores e de dirigentes da CBF, numa circunstância em que o futebol era o que menos interessava - prevaleceu mesmo o interesse em fazer bons negócios, alguns bastante nebulosos.

O povo brasileiro mais uma vez tem de cair na realidade, como avalia Joildo Santos, fundador e CEO do Grupo Cria Brasil:

"Durante algumas semanas, o país voltou a se organizar em torno de um sentimento antigo, a ideia de que, apesar de tudo, existe alguma coisa capaz de nos unir. A camisa amarela voltou às ruas, às telas, aos bares, aos grupos de família, às conversas de trabalho, às comunidades, aos prédios, às periferias e aos condomínios. O Brasil, mais uma vez, tentou caber inteiro dentro de um jogo de futebol.
Mas o futebol tem esse poder cruel, ele oferece um sonho coletivo e, quando termina, devolve a realidade sem pedir licença.
A derrota para a Noruega não foi apenas uma eliminação esportiva. Foi um choque simbólico. O Brasil entrou carregando a expectativa de sempre, como se a história resolvesse o jogo antes da bola rolar. Só que tradição não marca gol. Camisa não vence sozinha. E o adversário, em uma Copa do Mundo, não entra em campo para respeitar nossas memórias.
O mais interessante, porém, talvez não esteja apenas no que aconteceu dentro das quatro linhas. Está no que acontece conosco logo depois.
Antes do jogo, o ufanismo. Depois do apito final, o complexo de vira-latas.
Somos capazes de sair de "ninguém segura o Brasil" para "nada nesse país presta" em menos de 90 minutos. O mesmo povo que transforma jogadores em heróis nacionais antes da partida transforma esses mesmos jogadores em culpados absolutos depois da derrota. A euforia vira julgamento. A esperança vira cinismo. O amor vira cobrança.
É como se o Brasil não soubesse habitar o meio-termo.
Ou somos os melhores do mundo, destinados à glória, ou somos um fracasso completo, condenados à vergonha. Essa oscilação diz muito sobre a nossa relação com o futebol, mas também diz muito sobre a nossa relação com o próprio país.
O patriotismo mexe com o lado mais emocional do cérebro. Ele aciona memória, pertencimento, infância, família, rua, bairro, bandeira, música, comida, festa, grito, lágrima. Torcer pelo Brasil nunca foi apenas assistir a um jogo. É revisitar uma parte da nossa identidade.
Mas futebol de alto nível também é xadrez.
Exige leitura, estratégia, frieza, adaptação, repertório, coragem para mudar e humildade para reconhecer quando o outro entendeu melhor o tabuleiro. O problema é que, enquanto o jogo pede cálculo, a arquibancada pede catarse. Enquanto o campo exige paciência, a torcida exige destino. Enquanto a bola cobra lucidez, o país inteiro cobra milagre.
E, claro, somos mais de 200 milhões de técnicos.
Todo mundo sabe quem deveria ter começado jogando, quem deveria ter sido substituído, qual esquema resolveria o problema, qual jogador "amarelou", qual treinador não entendeu nada e qual decisão mudaria a história. Essa é uma das belezas do futebol, ele democratiza a opinião, mas é também uma de suas armadilhas, ele nos dá a sensação de que todo problema complexo tem uma solução simples, imediata e óbvia.
Não tem. Nem no futebol, nem na política, nem na economia, nem na vida pública.
 eliminação dói porque interrompe uma anestesia. Durante a Copa, o país ganha uma suspensão provisória da realidade. O preço do mercado continua alto, o ônibus continua cheio, o salário continua curto, a violência continua assustando, a saúde continua esperando, a educação continua em disputa, mas por algumas horas tudo parece caber em uma tela.
A bola rola e o país respira diferente.
Não há nada de errado nisso. Um povo também precisa sonhar. Precisa celebrar. Precisa torcer. Precisa esquecer, ainda que por pouco tempo, o peso cotidiano de viver em um país tão desigual. O futebol, para o Brasil, nunca foi apenas entretenimento. Ele é linguagem popular, ritual coletivo, memória afetiva e, muitas vezes, o único espaço em que milhões de pessoas se sentem parte de alguma coisa maior.
O problema é quando a anestesia passa.
Quando o sonho do hexa acaba, o noticiário volta com mais força. Voltam os problemas que estavam ali o tempo todo. Volta o país real, com suas urgências, contradições e feridas abertas. Volta também um ano eleitoral decisivo, em que o Brasil escolherá presidente, governadores, deputados federais, deputados estaduais e dois senadores por estado.
A arquibancada dá lugar à urna."

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