A técnica de chamar 'Jéssica' para distrair crianças durante crises emocionais gerou debates entre psicólogos e educadores, com opiniões divergentes sobre seus efeitos na autorregulação emocional infantil.
O redirecionamento da atenção, que ocorre quando a criança é distraída por um estímulo externo, pode ser eficaz em momentos de birra, mas não substitui a necessidade de compreender e validar as emoções da criança.
Especialistas recomendam diversificar as abordagens de manejo emocional, enfatizando a importância de validar sentimentos e ensinar habilidades de autorregulação, além de alertar sobre os riscos de expor crianças em momentos vulneráveis nas redes sociais.
Uma criança chora copiosamente, quando é interrompida pelo pai ou pela mãe falando, com ar de mistério: "Olha a Jéssica!", “Jéssica!!!”, "A Jéssica chegou!". O filho, confuso, interrompe os gritos, faz uma carinha de interrogação e começa a procurar pela tal figura desconhecida.
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A técnica, que viralizou em uma trend como uma solução "mágica" para a birra, gera debate entre psicólogos e educadores. Enquanto alguns veem a brincadeira como uma saída lúdica para o momento de descontrole, outros alertam para o risco de anular as emoções infantis e não desenvolver a tão importante habilidade de autorregulação.
Abaixo, entenda o que ocorre no cérebro infantil nesse momento e quando chamar por "Jéssica" pode ser aceitável.
O 'sequestro' da atenção: por que as crianças param de chorar?
Não, pessoal, “Jéssica” infelizmente não é um nome com propriedades calmantes ou mágicas.
O que ocorre nas cenas postadas nas redes é resultado de um mecanismo psicológico clássico chamado redirecionamento de atenção ou distração ativa. Quando uma criança enfrenta uma crise, fica mergulhada em um turbilhão emocional e sensorial, mas seu cérebro ainda não se desenvolveu a ponto de processar tudo isso.
Nesse contexto, o grito sobre a "Jéssica" funciona como um novo estímulo, externo e inesperado, que compete com a desregulação interna.
"O cérebro da criança troca de foco: sai do choro e vai para 'o que está acontecendo agora?'. Ela não necessariamente se acalmou — apenas suspendeu a reação motora naquele instante", explica Bianca Dalmaso, psicóloga do Espaço Einstein.
Luciene Tognetta, professora da Unesp e autora de livros infantis, reforça que, nessa fase, a inteligência é prática: segundo o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), a criança pequena constrói conhecimento por meio de manipulação de objetos e de experiências sensoriais, mesmo antes de desenvolver o pensamento simbólico ou a linguagem mais avançada.
Por isso, estratégias práticas que a tirem da situação de caos emocional podem ajudar na regulação.
"A criança para de chorar porque é transportada para outra situação. A mãe deixa de alimentar o conflito e propõe um novo cenário, em vez de reagir com violência ou insistir no problema. Ela pode, em vez de falar ‘Jéssica’, dizer: ‘olha o passarinho passando ali! Não acredito, ele voou por cima da cerca!’”, exemplifica.
“Mudando a entonação da voz e chamando atenção para um elemento externo, ela consegue mudar o foco do filho.”
Mas, atenção: quando o choro não for de birra, a técnica provavelmente não funcionará.
“Os pais têm de interpretar o sofrimento da criança, interpretar por que que ela está daquele jeito. Nos casos em que ela já está cansada, passou o dia inteiro brincando na escola ou coisa assim, ou em casos que juntam o cansaço com a fome, ela não parará de chorar”, afirma Bruno Jardini Mäder, coordenador do curso de Psicologia da Faculdades do Pequeno Príncipe e mestre em Psicologia.
Segundo o especialista, a necessidade pode ser tão forte que o redirecionamento não vai dar conta. Serão necessárias outras estratégias de regulação, com foco no acolhimento.
O poder de inventar novas realidades
O sucesso do método, portanto, reside na capacidade dos pais de inventarem situações surreais que dialoguem com o imaginário infantil.
Essa "fantasia de emergência" é um recurso válido, desde que não se transforme em ameaça.
"Se a frase for 'se não obedecer, a Jéssica vai te pegar', entramos no campo do medo. A criança passa a agir por temor a uma entidade superior, e não por compreender a necessidade da regra", alerta Tognetta.
O risco do 'atalho' emocional
Embora a técnica possa parecer eficaz para silenciar o choro no supermercado ou no meio do trânsito, o uso repetitivo dela pode criar um vácuo em uma área importante do desenvolvimento infantil: a da compreensão das próprias emoções.
A birra é a expressão de uma expectativa frustrada. Para o adulto, uma promoção negada pelo chefe causa chateação; para a criança, ser impedida de ver um desenho tem o mesmo peso emocional.
Mäder explica que os pais devem ser o "apoio cognitivo maduro" do filho neste momento. Se distraí-lo for a única ferramenta usada, ele perde a oportunidade de aprender a nomear o que sente.
"Suprimir a birra rapidamente apenas para aliviar o desconforto dos pais impede que o filho desenvolva tolerância ao desagrado. É assim que surgem as dificuldades de lidar com o 'não' no futuro", diz o psicólogo.
A criança pode entender algo como:
E isso leva:
“Ou seja: resolve no momento, mas não ensina a criança como ela pode se regular emocionalmente”, afirma Bianca Dalmaso, do Einstein.
Como agir em cada fase?
Como não existe fórmula mágica, a recomendação é diversificar as estratégias. Nem sempre o redirecionamento é o caminho; muitas vezes, a validação do sofrimento é o que traz a solução a curto e a longo prazo.
Até 2 anos
2 a 5 anos
Acima de 6 anos
Reflexão: a ética da exposição
Além do impacto no desenvolvimento, há outra questão envolvida na trend: a espetacularização do sofrimento infantil. Vale a pena registrar o filho em um momento de descontrole para divertir os seguidores e ganhar curtidas?
É inegável que ver uma criança parar de chorar e fazer cara de dúvida pode ser algo fofinho. Mas pense bem:
"Se um adulto fosse filmado chorando em uma situação de vulnerabilidade, consideraríamos uma invasão de privacidade. Com a criança, o cuidado deve ser redobrado", explica Mäder.
O vídeo da "Jéssica" pode ser engraçado para quem assiste, mas é o registro de um momento de insegurança que, uma vez na rede, foge do controle da família: pode virar munição para comentários externos ou constrangimentos futuros na escola.
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