Jornalista William Waack:
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“A expressão mar de lama é antiga na política brasileira, mas voltou com força na atual campanha eleitoral. Nos anos cinquenta, quando foi criada, servia para definir crises de corrupção sistêmica. Na acepção atual, descreve o ambiente no qual se movem candidatos à Presidência.
Cada um no eixo Lula-Bolsonaro acredita ter mais sujeira para jogar no outro, e assim obter decisiva vantagem eleitoral. Mas as pesquisas qualitativas sugerem um outro fenômeno: quando confrontados com esse tipo de mar de lama, eleitores tendem a ver todos como iguais. Especialmente os ‘de centro’ que, assume-se, vão decidir o pleito.
Pode-se argumentar que as acusações de corrupção que chegam à antessala do presidente Lula têm outro quilate do que as suspeitas envolvendo qual a destinação final do dinheiro que o candidato Flavio Bolsonaro pediu para um ex-banqueiro que comandava um esquema criminoso. Mas aqui não é este o ponto.
O ponto é o envolvimento de instituições de Estado nesse cenário − que os cínicos dirão ser o cenário costumeiro e imutável da luta política. De fato, a luta suja depende hoje especialmente do STF, onde tramitam os processos dos principais escândalos, e da Polícia Federal, incumbida de investigá-los.
Não se trata, porém, das atribuições constitucionais de cada uma dessas instâncias. Mas, sim, da percepção de que cada uma atua como parte numa guerra aberta que julgam poder conduzir à medida em que aceleram ou obstruem investigações, ameaçam adversários com operações policiais ou oferecem proteção, e desta maneira tentam influenciar o resultado de eleições.
O STF rachou de maneira provavelmente irreparável nesse processo, com a ‘ala de força’ (Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flavio Dino) empenhada numa campanha de isolamento de quem considera seu perigoso adversário, André Mendonça. Essa campanha ultrapassou há muito os muros da Corte e está nas ruas.
Deixou também de ser um conflito típico da luta pelo poder dentro do Judiciário (sempre houve), e ganhou a feição de um grande acordão político que inclui hoje os presidentes das duas Casas Legislativas, com apoio tácito de dirigentes de partidos do Centrão. Medo de investigações, barganhas políticas tradicionais e o primado das oligarquias regionais criaram uma convergência de interesses na vitória de Lula nas próximas eleições.
É uma aposta de considerável risco, pois a eleição está hoje no fio da navalha, mesmo com o ligeiro favoritismo de Lula nas pesquisas. Mais ainda: o envolvimento de instituições de Estado na luta política acirra aspectos graves para o que vem depois das eleições, não importa o vencedor. Trata-se da própria legitimidade delas, pois não há quem saia limpo depois de mergulhar num mar de lama.”
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