Comandar um partido político significa ter sob seu controle os milhões do fundo partidiário e, a cada dois anos, a milionária verba do Fundão Eleitoral.
Esses privilegiados cidadãos normalmente são fracassados quanto tentam obter um mandato, mas fazem uso desses recursos como bem querem e, ainda por cima, são eles que definem os candidatos da sua legenda e negociam, ao seu bel prazer, o tempo de rádio e TV no horário eleitoral para o fechamento de coligações.
Normalmente em troca de cargos ou favores - sem prejuízo de eventuais compensações financeiras "por baixo dos panos".
É nessa linha o texto a seguir, de Elias Fragoso, economista e professor aposentado da UFAL, publicado originalmente no "Extra":
"A democracia nasceu na Grécia sob o signo da isegoria: a liberdade de qualquer cidadão tomar a palavra na pólis e moldar o destino comum. Do ímpeto da Revolução Francesa, que estilhaçou o direito divino, ao refinamento das modernas democracias da Suécia, Suíça e Alemanha, o sistema evoluiu para proteger o indivíduo frente ao Estado. Nestas nações, o partido é um acessório da inteligência coletiva; no Brasil, ele se tornou um bunker de privilégios e um sequestrador da soberania. Trilhamos um caminho solitário e obscuro para construir uma partidocracia de cartório, uma excrescência que desafia o Pacto de San José da Costa Rica ao proibir que o cidadão concorra sem o pedágio de uma legenda viciada.
O que assistimos hoje é a morte cerebral do debate político de alto nível. O parlamento não é mais o palco da retórica ou da gestão, mas um balcão de negócios operado sob o manto da fragmentação partidária. Temos dezenas de siglas que não representam ideias, mas 'fatias' de orçamento. Essa pulverização gera uma instabilidade legislativa crônica: o Executivo não governa para o povo, mas para saciar a sede de cargos de cúpulas partidárias insaciáveis. No vácuo desse vazio de ideias, floresce uma polarização tóxica, um ódio orquestrado que erode a tolerância e transforma a cidadania em uma guerra de torcidas cegas, enquanto os verdadeiros donos do poder dividem o botim em silêncio.
E o botim é oceânico. Para o ciclo de 2026, a "tunga" institucionalizada entre os Fundos Eleitoral e Partidário deve sangrar cerca de R$ 6,4 bilhões do contribuinte. É o financiamento compulsório da própria opressão. O escárnio é completo ao vermos quem detém a chave desse cofre: figuras como Valdemar Costa Neto (PL), o símbolo da sobrevivência pós-Mensalão; Ciro Nogueira (PP), investigado na recente Operação Compliance Zero por supostas mesadas de R$ 500 mil ligadas ao Banco Master; e Antonio Rueda (União Brasil), sob a mira de investigações sobre conexões logísticas com o crime organizado. Sob esses generais, os partidos tornaram-se lavanderias de reputações, lançando candidatos sem qualquer qualificação técnica, mas com fieiras de processos criminais nas costas, todos blindados pelo 'manto da aquiescência' das siglas.
O uso do mandato para fins espúrios tornou-se o padrão. O representante não serve ao eleitor, mas ao cacique que lhe garantiu o fundo e a legenda. Esse vácuo moral empurrou o país para um ativismo judicial perigoso: com a política paralisada por interesses mesquinhos, o Judiciário avança sobre os outros Poderes, legislando por decreto e aprofundando a insegurança jurídica. No fim dessa cadeia de horrores está a desigualdade abissal: a exclusão da participação política efetiva garante que os mesmos grupos de sempre continuem redigindo leis em benefício próprio, enquanto o cidadão honesto é barrado na porta por não ter "dono".
A ruptura exige a implosão desse monolito via candidaturas avulsas e voto distrital puro. A candidatura independente retira do cacique o poder de vida ou morte sobre uma liderança cívica; ela permite que o médico, o professor ou o gestor se apresente ao povo sem pagar o pedágio moral de uma estrutura criminosa. O voto distrital aproxima o representante do vizinho, acaba com as campanhas bilionárias e com os 'puxadores de votos' que hoje carregam a escória processada para dentro do Congresso através de fórmulas matemáticas opacas.
Libertar a política deste garrote partidário é, em última análise, a única via para que o Brasil reencontre sua vocação de grandeza. Somente a oxigenação da representação poderá destravar as reformas que o desenvolvimento exige e permitir que o país volte a crescer com a força de sua criatividade e de seus recursos naturais. O futuro do Brasil não pertence a oligarquias que nos saqueiam para proteger seus criminosos de estimação, mas a uma democracia vibrante que, ao abrir as portas para o talento independente e para o compromisso direto com o eleitor, coloque o crescimento econômico e o desenvolvimento social acima dos interesses de gabinete.
É hora de retomar o Brasil para os brasileiros, transformando a política no motor da nossa prosperidade, e não na âncora do nosso atraso."
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