Contextualizando

Para quem foi dirigido o gesto obsceno de Lula?

Em 12 de Julho de 2026 às 18:30

Do jornal "O Estado de São Paulo":

"Durante um anúncio sobre o Brasil Sorridente, programa federal que oferecerá próteses dentárias moldadas em 3D para os cidadãos mais carentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou o dedo médio a quem, no seu entender, desdenha da pobreza de seus concidadãos.

'Nós vamos acabar com essa história de que o pobre não gosta de coisa boa. Aqui para eles. Nós gostamos de coisa boa', disse Lula. O gesto, de uma vulgaridade típica do petista, mas imprópria para a mais alta autoridade da República, não seria digno desta nota não fosse pelo tanto que revela sobre o espírito do atual governo.

Supostamente dirigida à 'elite', a velha inimiga imaginária dos petistas, a obscenidade de Lula, a rigor, atingiu em cheio o brasileiro pagador de impostos – aquele que sustenta, com muito sacrifício, a máquina pública que o presidente insiste em instrumentalizar a seu favor às vésperas de mais uma eleição.

Mais obscena do que o gesto, contudo, é a desfaçatez com que Lula se colocou entre os pobres, como se fosse um deles. Ademais, deveria ser ocioso lembrar que o PT terá governado o Brasil por 18 dos últimos 24 anos.

Portanto, é lícito perguntar: o que Lula fará num eventual quarto mandato para elevar a renda dos brasileiros que já não tenha feito, ou deixado de fazer, nesse longo período liderando o País? A resposta honesta é uma só: nada.

O que resta é o discurso eleitoreiro que opõe 'ricos contra pobres', figura de retórica cara a lideranças populistas de todos os matizes – e que Lula manipula há tempos com o talento de um ator canastrão.

Ao afirmar que os mais abastados só bancam seus planos de saúde porque 'pagam', e que, na verdade, 'quem paga somos nós, que deixamos de receber o dinheiro' – numa alusão às deduções do Imposto de Renda –, o presidente tenta transformar em hipocrisia o que, a bem da verdade, é um mecanismo tributário como outro qualquer.

Além disso, Lula ignora o fato de que milhões de brasileiros pagam caro por planos de saúde porque não recebem como contrapartida a impostos escorchantes um sistema público de saúde que atenda às suas necessidades.

Todo esse falatório de Lula, deve-se reconhecer, é eficiente do ponto de vista eleitoral, sobretudo porque desvia o foco de um debate mais sério sobre a higidez das contas públicas. Eis o ponto fundamental: não existe política social mais eficaz do que o controle responsável do Orçamento da União.

Como costumamos afirmar com mais frequência do que gostaríamos, responsabilidade fiscal não é um fetiche da Faria Lima, como Lula e seus aliados insistem em caricaturar. É condição indispensável para a queda da inflação, para a redução dos juros e para que o Estado recupere a capacidade de investir em educação, saúde, segurança e infraestrutura de qualidade – justamente as políticas públicas que têm condições de emancipar os brasileiros.

A desordem fiscal que Lula promove com gosto onera precisamente as camadas mais pobres da população, as mesmas que o presidente jura de pés juntos defender. É o pobre quem mais sofre com a inflação alta, com o crédito caro e com o câmbio instável. Isso não é questão de opinião, mas de matemática elementar.

Oferecer dentaduras aos cidadãos que não têm condições de pagar por elas é meritório do ponto de vista da saúde pública. Ninguém de bom senso há de negar isso. Mas é também a parte mais fácil, mais barata e mais vistosa, do ponto de vista eleitoral, de um governo que confunde seus interesses eleitorais imediatos com um projeto de país.

Um genuíno estadista, ao contrário de um populista de horizontes limitados como Lula, criaria as condições estruturais para que o Brasil cresça de forma sustentada e, assim, liberte seus cidadãos da dependência de programas assistenciais, de modo a conquistar uma vida digna por seu próprio esforço.

Lula, porém, jamais teve real preocupação com o controle das contas públicas, e não será às vésperas de uma eleição que honrará seus cabelos brancos e passará a ser responsável. Mas que ao menos fosse honesto – isto é, que reconhecesse que o dedo médio, mostrado em nome dos pobres, foi dirigido a quem paga a conta de seus desatinos."

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