Pesquisa revela efeito surpreendente de veneno de jararaca no combate a doença

Publicado em 04/08/2026, às 11h25
Pexels
Pexels

Por CNN Brasil

Pesquisadores da USP e do Instituto Butantan descobriram que venenos de serpentes do gênero Bothrops, como a jararaca, podem reduzir a viabilidade do parasita Schistosoma mansoni, causador da esquistossomose, oferecendo novas perspectivas para tratamentos da doença.

O estudo, publicado no International Journal of Molecular Sciences, revelou que venenos de oito espécies de serpentes diminuíram a locomoção, fixação e reprodução dos vermes, sendo o Bothrops moojeni o mais eficaz entre eles.

Os pesquisadores planejam investigar mais a fundo os RNAs não codificadores identificados como alvos terapêuticos e desenvolver moléculas sintéticas para desativar suas funções, com o objetivo de criar novos fármacos para o tratamento da esquistossomose.

Resumo gerado por IA

Venenos de serpentes do gênero Bothrops, incluindo a jararaca, podem ajudar no tratamento da esquistossomose, podendo reduzir a viabilidade dos vermes, segundo estudo de pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Instituto Butantan.

Os resultados do estudo, que foram descritos em artigo publicado no International Journal of Molecular Sciences, poderão servir de base para o desenvolvimento de novos fármacos para o tratamento da doença.

Os pesquisadores realizaram testes em laboratório para entender os efeitos de venenos de serpentes do gênero Bothrops sobre a expressão gênica, reprodução e viabilidade do Schistosoma mansoni, um dos parasitas causadores da esquistossomose, com foco especial na identificação de lncRNAs (RNAs não codificadores longos) que podem servir como novos alvos terapêuticos contra a esquistossomose.

Durante os experimentos, alguns venenos conseguiram reduzir a locomoção, a fixação e a viabilidade dos vermes, além de interromper a postura de ovos.

A necessidade de novos tratamentos surge devido à crescente tolerância do parasita ao praziquantel, o único medicamento disponível atualmente, já que, atualmente, existem grupos de pessoas que precisam de doses maiores do medicamento para se curarem da doença. Além disso, o remédio também não é eficaz contra as formas imaturas do verme.

Marina Zenga Carrenho e Agatha Fischer Carvalho, primeiras autoras do artigo publicado, são estudantes de graduação do Instituto de Biociências (IB) da USP, e Murilo Sena Amaral, líder do estudo, é pesquisador no Instituto Butantan.

Os venenos

Foram obtidos venenos de oito espécies de serpentes brasileiras, todas do gênero Bothrops, em doses subletais, para serem testados pelos pesquisadores:

  • Jararaca (Bothrops jararaca);
  • Caiçaca ou jararaca-do-cerrado (Bothrops moojeni);
  • Jararacuçu (Bothrops jararacussu);
  • Jararaca-do-norte (Bothrops atrox);
  • Jararaca-vermelha (Bothrops brazili);
  • Cotiara (Bothrops cotiara);
  • Jararaca-de-rabo-branco (Bothrops leucurus);
  • Jararaca-pintada (Bothrops neuwiedi).

Testes realizados

O objetivo dos testes foi entender quais processos vitais do parasita podem ser afetados por esses venenos e quais RNAs longos não codificadores de proteínas estão envolvidos nelas.

Apesar de não codificarem proteínas, os RNAs têm papéis regulatórios no verme, envolvidos em processos de reprodução e homeostase (equilíbrio fisiológico).

O primeiro teste do estudo foi colocar casais de vermes adultos em contato com doses baixas de cada um dos oito venenos, em paralelo, por 24 horas.

Desses, o Bothrops moojeni foi o mais potente, reduzindo significativamente o acasalamento, adesão, motilidade, viabilidade e a oviposição dos vermes. Embora menos letal nos testes gerais, o Bothrops jararacussu também reduziu drasticamente a oviposição.

Segundo o pesquisador Murilo Sena Amaral, foram sequenciados os genes expressos pelos vermes machos e fêmeas, separados, após a incubação com esses dois venenos.

“Observando os resultados do sequenciamento, vemos um colapso sistêmico nos vermes machos, que apresentaram um número muito maior de genes afetados pelos venenos do que as fêmeas”, ressalta.

Os genes afetados em machos estão envolvidos em processos essenciais, como divisão celular e transmissão de impulsos nervosos, enquanto as fêmeas apresentaram diferença de expressão em genes envolvidos em processos mais específicos, como reprodução.

Próximos passos

De acordo com divulgação da USP, o estudo é uma etapa de pesquisa básica, que explora novos potenciais alvos terapêuticos contra a esquistossomose, que devem ser mais explorados em estudos futuros.

A função desses RNAs na biologia do parasita poderão ser melhor compreendidas em etapas futuras. Posteriormente, será preciso desenhar moléculas sintéticas para atingir esses RNAs e "desligar" suas funções essenciais.

Uma vez que obtivermos moléculas que funcionem bem em laboratório para desativar esses alvos, esses novos potenciais fármacos ainda precisariam passar por testes funcionais para confirmar sua eficácia em organismos vivos e, posteriormente, por rigorosos ensaios clínicos em humanos antes de chegar à população", afirma o pesquisador.

O que é esquistossomose

Conhecida popularmente como barriga d’água, a esquistossomose é uma infecção parasitária causada por vermes do gênero Schistosoma.

A transmissão ocorre em ambientes de água doce contaminada, onde larvas microscópicas liberadas por caramujos, chamadas cercárias, penetram ativamente pela pele durante o contato com a água.

Após atravessar a pele, a cercária perde a cauda e se transforma em esquistossômulo. Nesse estágio, o parasita entra na corrente sanguínea, passa pelo coração e pelos pulmões e segue até as veias do fígado.

Nas veias, se alimenta de sangue e amadurece até a fase adulta, diferenciando-se em macho ou fêmea. O macho possui uma estrutura chamada canal ginecóforo, onde a fêmea se aloja, formando um par que permanece unido por toda a vida. Juntos, migram para as veias mesentéricas, que drenam o intestino.

A partir daí, a fêmea passa a produzir ovos: parte deles é eliminada nas fezes, permitindo a continuidade do ciclo, mas outra parte fica retida no hospedeiro humano e é levada pela circulação, desencadeando inflamações e lesões, especialmente no fígado.

A esquistossomose é a segunda doença tropical que mais afeta pessoas no mundo, cerca de 200 milhões de pessoas, depois da malária.

Gostou? Compartilhe