A pizzaria Chatubão, que operou em São Paulo até 2018, está no centro de uma investigação policial que liga seu ex-sócio Everton de Sousa a um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC, resultando em sua prisão. A empresa, que movimentou apenas R$ 58,39 em cartões de crédito durante dois anos, levanta suspeitas sobre sua real atividade comercial.
Durante quatro anos, a Chatubão recebeu R$ 566 mil, dos quais 94% têm origem não identificada, e repassou R$ 160 mil a Everton, valor superior ao faturamento declarado de R$ 96 mil. A Polícia Civil aponta que a pizzaria funcionava como uma fachada para atividades ilícitas, com Everton gerenciando uma rede de empresas para ocultar fluxos financeiros.
A influenciadora Deolane Bezerra, também implicada no esquema, é acusada de operar 35 empresas fictícias que serviam como caixa para o crime organizado, recebendo mais de R$ 1 milhão de uma transportadora ligada a Everton. Sua defesa alega inocência e já entrou com um habeas corpus para solicitar a liberdade da influenciadora.
Nada de cerveja Duff: o Homer Simpson que estampa a logomarca de um estabelecimento usado no suposto esquema que levou a influenciadora Deolane Bezerra à prisão está contente com duas fatias de pizza, uma em cada mão. Trata-se da Chatubão, estabelecimento localizado no distrito paulistano do Cambuci.
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A empresa já não existe mais. Quando ativa, porém, ocupava uma pequena sala no térreo de um prédio com duas janelas quebradas. Foi aberta em 2014 e pertencia a dois sócios.
O primeiro, Willian da Silva Furtuoso, morreu em abril de 2020. O segundo, Everton de Sousa, foi indiciado e preso pela Polícia Civil nesta quinta-feira (21) sob suspeita de participação no esquema que segundo a polícia lavava dinheiro para o PCC. A Folha de S.Paulo ligou na tarde desta sexta (22) para o advogado José Albino Neto, que defende Sousa, mas não foi atendida.
Recursos em espécie eram praticamente regra na pizzaria, cuja página na rede social Instagram reúne apenas 12 publicações. Onze delas envolvem pizzas; a outra, futebol.
Durante dois anos, a empresa só movimentou R$ 58,39 em cartões de crédito ou débito, algo que a Polícia Civil afirma ser suspeito. "Causa enorme estranheza que uma pessoa jurídica explore a atividade de gêneros alimentícios e revele inexpressiva movimentação por meio de cartões", afirmou.
A Chatubão mantinha três contas correntes. Segundo as investigações, 94% dos R$ 566 mil que recebeu durante quatro anos são de origem não identificada.
Uma outra questão também chamou a atenção da polícia: o fato de a empresa ter repassado ao sócio Everton valores maiores do que aquilo que declarou como faturamento bruto.
Foram R$ 160 mil pagos a ele ao mesmo tempo em que a receita total declarada em registros contábeis oficiais fala em R$ 96 mil.
A Polícia Civil diz que Everton mantinha uma rede de empresas destinada a lavar dinheiro para a facção criminosa PCC. Um deles, o bar homônimo, funcionava no mesmo endereço.
"A situação envolvendo a Pizzaria Chatubão revela um cenário repleto de inconsistências que, quando analisadas conjuntamente, apontam para indícios de utilização da empresa como fachada e possível participação em fluxos de lavagem de capitais dentro da rede investigada", diz a Polícia Civil.
A lista de empresas ligadas a Everton também inclui locadoras de veículos, serviços automotivos e outros segmentos que, de acordo com as investigações, eram utilizados "para fracionamento e dispersão de valores ou para conferir aparência de legalidade a operações pré-determinadas".
A própria transportadora de Presidente Venceslau apontada como peça central do esquema também era gerida de forma indireta por ele, segundo as investigações.
É a mesma transportadora que repassou pouco mais de R$ 1 milhão à influenciadora e advogada Deolane Bezerra, apesar de não haver nenhum registro de que ela tenha prestado serviços à empresa.
Deolane, segundo as investigações, chegou a abrir 35 empresas num mesmo endereço residencial e funcionava como uma espécie de caixa para a facção criminosa, segundo investigadores.
Os estabelecimentos, todos fictícios de acordo com as autoridades, criavam uma espécie de teia de movimentação financeira que dificultava a rastreabilidade dos recursos.
A defesa de Deolane sustenta que ela é inocente e declarou nesta sexta (22) que "os fatos serão devidamente esclarecidos em momento oportuno".
Afirmou ainda ter entrado com um habeas corpus contra a prisão de sua cliente e disse ter solicitado regime domiciliar à influenciadora.
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