Um estudo genético internacional revelou que os enjoos na gravidez, especialmente a hiperêmese gravídica, têm bases biológicas e genéticas, desafiando a visão de que são apenas efeitos colaterais psicológicos. Essa condição afeta cerca de 2% das gestantes, causando vômitos persistentes e riscos de desnutrição severa.
A pesquisa identificou o gene GDF15 como um fator crucial, cuja sensibilidade varia entre as mulheres, além de outros nove genes que ampliam a compreensão sobre a condição, conectando-a a diferentes sistemas biológicos, como regulação do apetite e plasticidade cerebral.
Com a descoberta de novos alvos genéticos, novas abordagens terapêuticas estão sendo exploradas, incluindo o uso de metformina antes da gravidez para prevenir a hiperêmese gravídica. O estudo também ajuda a reduzir o estigma associado à condição, reconhecendo-a como um distúrbio complexo que afeta a saúde materna e fetal.
Os enjoos na gravidez, frequentemente tratados como um efeito colateral inevitável, estão sendo reinterpretados à luz de novas evidências científicas. Um amplo estudo genético internacional liderado por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos, identificou não apenas um, mas um conjunto de fatores biológicos que ajudam a explicar por que algumas mulheres sofrem com as náuseas intensas e, em casos extremos, podem até desenvolver um quadro de hiperêmese gravídica (HG).
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Essa condição representa a forma mais grave dos enjoos gestacionais. Afetando cerca de 2% das mulheres, ela vai muito além do desconforto típico, provocando vômitos persistentes, desidratação, dificuldade extrema de alimentação e aumentando os riscos de desnutrição severa. Historicamente, o problema foi atribuído a fatores psicológicos, no entanto, o novo estudo aponta que ele possui base biológica, genética e mensurável, com implicações relevantes tanto para a mãe quanto para o feto.
Publicado nesta terça-feira (14) na revista Nature Genetics, o trabalho analisou dados de 10.974 mulheres com HG e 461.461 pessoas no grupo controle - amostra, que incluía participantes de ascendência europeia, asiática, africana e latina, permite classificar o estudo como um dos maiores já realizados sobre o tema a nível genético.
Gene GDF15
O principal protagonista identificado pelo estudo é o gene GDF15, responsável pela produção de um hormônio que aumenta drasticamente durante a gravidez. A novidade não está apenas na associação do hormônio com os sintomas, mas na compreensão de como o organismo reage a ele.
De acordo com os autores, a gravidade dos enjoos está ligada à sensibilidade individual ao GDF15, determinada geneticamente. Mulheres com mutações que levam a níveis mais baixos do hormônio antes da gravidez tendem a apresentar uma resposta exacerbada quando ele se eleva durante a gestação. Já aquelas previamente expostas a níveis mais altos parecem desenvolver uma espécie de tolerância fisiológica.
“Como este é o maior estudo sobre HG já realizado, conseguimos desvendar novos detalhes importantes que eram desconhecidos anteriormente”, afirma Marlena Fejzo, líder da pesquisa, em comunicado à imprensa. Esse mecanismo sugere que o organismo reage ao aumento do GDF15 como um estímulo aversivo, possivelmente relacionado a sistemas evolutivos de proteção contra toxinas, o que pode explicar a associação entre gravidez e rejeição alimentar.
Dez genes, múltiplos sistemas biológicos
Além do GDF15, os pesquisadores identificaram outros nove genes associados à hiperêmese gravídica, seis deles descritos pela primeira vez nesse contexto: FSHB, TCF7L2, SLITRK1, SYN3, IGSF11 e CDH9.
Os quatro já conhecidos — GDF15, GFRAL (receptor do hormônio), IGFBP7 e PGR — estão ligados principalmente ao desenvolvimento placentário e à sinalização hormonal. Já os novos genes ampliam significativamente o escopo biológico da condição, conectando a HG a diferentes sistemas.
“Este é um alvo totalmente novo, e ainda não está claro qual é o seu papel na gravidez”, destaca Fejzo sobre o gene TCF7L2, indicando uma fronteira aberta para novas investigações.
Cérebro aprende a sentir enjoo
Um dos aspectos mais curiosos da análise é a hipótese de que a hiperêmese gravídica não é apenas uma resposta hormonal direta, mas também envolve processos de aprendizado cerebral. A capacidade de adaptação do cérebro (conhecida como plasticidade neural) pode levar nosso sistema nervoso a associar determinados alimentos, cheiros ou contextos à sensação de náusea.
Isso explicaria por que algumas gestantes desenvolvem aversões intensas e persistentes, que vão além de respostas fisiológicas imediatas. Tal interação entre hormônios e sistema nervoso central sugere que o enjoo gestacional é um fenômeno integrado, envolvendo eixo intestino-cérebro, sinalização metabólica e adaptação comportamental.
Implicações clínicas e terapêuticas
Apesar da gravidade da hiperêmese gravídica, as opções de tratamento ainda são limitadas. O medicamento mais utilizado, o ondansetrona, apresenta eficácia parcial, funcionando adequadamente em cerca de metade das pacientes. A identificação de novos alvos genéticos abre caminho para abordagens mais personalizadas, baseadas no perfil biológico de cada paciente.
Uma das estratégias mais promissoras já está em fase de teste, o uso da metformina, um medicamento para diabetes, antes da gravidez. A hipótese é que o fármaco aumente os níveis de GDF15 previamente, reduzindo a sensibilidade ao hormônio durante a gestação.
Se confirmada, essa abordagem pode não apenas tratar, mas prevenir a hiperêmese gravídica em mulheres de alto risco. “Agora que mais que dobramos o número de genes associados à hiperêmese gravídica, podemos investigar mais a fundo a biologia por trás dessa condição, bem como novas possíveis vias para tratá-la”, observa Fejzo.
Novo entendimento e menos estigma
Ao demonstrar que os enjoos severos da gravidez têm base genética e fisiológica clara, o estudo contribui para desmontar um histórico de subestimação e estigmatização da condição. Com isso, a hiperêmese gravídica deixa de ser vista como exagero ou fragilidade individual e passa a ser reconhecida como um distúrbio complexo, envolvendo múltiplos sistemas do organismo.
“O estudo sugere que esses resultados podem ser generalizáveis para uma ampla população”, conclui Fejzo. Assim, a ciência abre novas possibilidades para diagnóstico, prevenção e tratamento, com impacto direto na saúde materna e fetal.
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