Cidades brasileiras enfrentam enfrentam problemas semelhantes de instabilidade.
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Prédios inclinando, ruas rachando e solo cedendo.
Consequência do peso de obras, aterros e retirada de água subterrânea, num risco que se espalha por dezenas de municípios, alguns com maior gravidade.
É o que revela o jornalista Noel Budeguer, em reportagem no portal IG:
"O solo está cedendo em diferentes partes do Brasil e o problema já aparece em cidades grandes, áreas costeiras e bairros inteiros afetados por obras, mineração e retirada de água do subsolo.
Em Recife, áreas urbanas registram afundamento próximo de 2 cm por ano. Em Santos, mais de 300 prédios inclinados expõem décadas de construções sobre terreno frágil. Em Maceió, bairros foram esvaziados após o colapso ligado à exploração de sal-gema.
O problema não se limita a um único município. Casos de subsidência, nome usado para o rebaixamento do terreno, aparecem em várias regiões do país e revelam uma falha grave no monitoramento oficial do solo urbano.
Recife aparece entre os casos mais preocupantes. Áreas da zona oeste registram afundamento próximo de 20 milímetros por ano, o equivalente a cerca de 2 cm anuais.
O avanço foi identificado em bairros como Várzea, Caxangá, Engenho do Meio, Cordeiro, Torrões e San Martin. Em pontos mais sensíveis, o rebaixamento pode ser ainda maior.
O fenômeno ocorre em regiões marcadas por solos moles, aterramentos, expansão urbana e pressão sobre áreas que já foram mangues, várzeas ou terrenos úmidos. Quando construções pesadas avançam sobre esse tipo de solo, o terreno perde estabilidade e começa a ceder.
SANTOS
Santos concentra um dos sinais mais visíveis do problema. A cidade tem 319 prédios inclinados, com dezenas deles em situação considerada mais acentuada.
A explicação está no chamado recalque diferencial. Em linguagem simples, isso acontece quando uma parte do prédio afunda mais do que a outra. O resultado aparece na fachada torta, nas paredes trincadas e na sensação de que o edifício está fora do eixo.
Esse tipo de problema costuma estar ligado a fundações rasas em terrenos formados por camadas moles e irregulares. O peso da construção pressiona o solo, que reage de forma desigual ao longo dos anos.
A dimensão nacional do problema aparece em levantamento que identificou 75 eventos de subsidência no Brasil. O Sudeste concentra a maior parte dos registros, seguido por Nordeste, Sul, Centro Oeste e Norte.
Mais da metade dos casos tem relação com ação humana. Entre as principais causas estão mineração, extração de água subterrânea, obras urbanas, ocupação de áreas frágeis e alterações no equilíbrio natural do terreno.
A retirada excessiva de água do subsolo é especialmente sensível. Quando os aquíferos perdem volume, as camadas de solo podem compactar. Com isso, ruas racham, imóveis sofrem deformações e a cidade passa a afundar aos poucos.
RIO DE JANEIRO
No Rio de Janeiro, áreas da zona oeste também chamam atenção. Em Rio das Pedras, o afundamento pode chegar a patamares superiores aos observados em outras cidades brasileiras.
O problema está ligado a solos argilosos e orgânicos, que são mais frágeis quando recebem peso constante de casas, prédios e vias pavimentadas. Com o tempo, esses materiais perdem água, diminuem de volume e provocam o rebaixamento do terreno.
Bairros construídos sobre áreas aterradas, antigas zonas úmidas e terrenos instáveis ficam mais expostos. O risco aumenta quando a ocupação cresce rápido sem planejamento geológico adequado.
MACEIÓ
Maceió é o caso mais grave e conhecido. O afundamento atingiu bairros como Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol, com milhares de imóveis desocupados.
A origem está ligada à mineração de sal-gema em área urbana. Cavidades abertas no subsolo perderam estabilidade e provocaram rachaduras, tremores, deformações e risco de colapso.
O impacto foi direto na vida de moradores que precisaram deixar casas, comércios e ruas inteiras. A cidade passou a conviver com áreas vazias, imóveis condenados e uma crise urbana que mudou o mapa de vários bairros.
RISCO URBANO
O avanço da subsidência no Brasil expõe uma lacuna grave. Muitos municípios convivem com sinais de afundamento sem um mapa nacional detalhado, padronizado e atualizado.
Isso dificulta a prevenção. Sem monitoramento contínuo, rachaduras em ruas, inclinação de prédios e deformações no solo podem ser tratadas como casos isolados até que o dano fique caro demais ou perigoso demais.
O país já tem sinais suficientes para tratar o tema como risco urbano. Recife, Santos, Rio de Janeiro e Maceió mostram que o solo pode ceder por motivos diferentes, mas o efeito final atinge a mesma base da vida nas cidades.
A subsidência pressiona moradias, obras públicas, redes de água, esgoto, drenagem e mobilidade. Sem controle da ocupação, da mineração e da extração de água subterrânea, o chão que sustenta bairros inteiros passa a mudar a leitura estratégica das cidades brasileiras."
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