O Brasil registra situações bastante peculiares, sem parâmetro em qualquer outro país.
Nessa terra tupiniquim, os interesses pessoais constumam se sobre por até mesmo às próprias instituições.
Isso está se transformand, lamentavelmente, numa tradição.
É o que explica, no portal "Diário Poder", o ensaísta David Gertner, escritor e Ph.D pela Northwestern University:
"Não estamos diante de desvios pontuais nem de falhas que o próprio sistema corrige com o tempo. O que se observa, em diferentes sociedades que continuam a se apresentar como democráticas, é um deslocamento mais profundo: a lei permanece, as instituições funcionam, os ritos são respeitados — mas o seu sentido é progressivamente alterado.
Em vez de limitar o poder, a estrutura jurídica passa a ser utilizada para protegê-lo, administrá-lo e, em muitos casos, perpetuá-lo.
Esse processo não ocorre por ruptura, mas por transformação interna. Nomeações seguem procedimentos formais, decisões são tecnicamente justificadas, órgãos de controle mantêm sua arquitetura. No entanto, à medida que critérios de mérito e independência cedem lugar à conveniência política, instala-se algo mais corrosivo do que a ilegalidade aberta: a dúvida consistente sobre a imparcialidade. E, quando a imparcialidade se torna incerta, a própria ideia de justiça deixa de operar como referência comum.
A partir desse ponto, a aplicação da lei deixa de ser uniforme e passa a ser calibrada. O rigor que se observa em determinadas situações não se reproduz em outras; a cautela, que em alguns casos se apresenta como prudência institucional, em outros funciona como mecanismo de proteção. Essa assimetria raramente é declarada, mas é amplamente percebida — e, uma vez percebida, altera o fundamento do sistema: a igualdade perante a lei deixa de ser uma experiência concreta e passa a ser uma expectativa condicional.
Nesse ambiente, a corrupção deixa de ser apenas o desvio evidente de recursos e se transforma em algo mais sofisticado e mais difícil de enfrentar: a utilização deliberada das próprias regras para reduzir riscos, proteger aliados, acomodar interesses e garantir continuidade. Não se trata apenas de violar a lei, mas de operá-la estrategicamente, explorando suas brechas, ampliando suas ambiguidades e testando seus limites até o ponto em que a forma permanece intacta, mas o conteúdo já foi distorcido.
É assim que a máquina pública muda de função. O que deveria ser instrumento da sociedade passa a ser, progressivamente, instrumento de autopreservação política. Decisões são ajustadas para evitar custos, normas são interpretadas para acomodar interesses, mecanismos de controle são acionados ou contidos conforme a conveniência. A lei não desaparece; ela é incorporada como ferramenta de gestão do poder.
O impacto desse deslocamento sobre os direitos civis é inevitável. Direitos que deveriam operar como garantias universais passam a ser interpretados à luz do contexto político, do momento e da posição do indivíduo dentro do sistema. A proteção se torna variável, a aplicação oscila, e aquilo que deveria limitar o poder passa a depender dele. Nesse ponto, os direitos deixam de cumprir sua função essencial: deixam de ser limites e passam a ser concessões. E concessões, por definição, podem ser retiradas.
Nada disso se impõe de forma abrupta. Esse tipo de sistema não se declara — ele se instala. Avança por meio de ajustes graduais, decisões justificáveis isoladamente, exceções que parecem técnicas, mas que, acumuladas, redefinem o padrão. O que antes seria inaceitável passa a ser discutido; o que é discutido passa a ser tolerado; o que é tolerado passa a ser incorporado. E, quando incorporado, deixa de ser percebido como desvio.
É assim que se forma uma cadeia de transgressões que não rompe com o sistema, mas passa a operar dentro dele, beneficiando aqueles que melhor dominam suas regras e suas ambiguidades. Políticos que agem em desrespeito ao espírito da lei — ainda que protegidos por sua forma — deixam de ser exceção e passam a ser parte de uma lógica que se autoalimenta. Não se trata mais de episódios isolados, mas de um padrão que favorece a continuidade e reduz o custo da transgressão.
Diante disso, não basta descrever o problema. É necessário enfrentá-lo.
É preciso restabelecer critérios inequívocos de transparência, independência e responsabilização. Transparência não como exposição seletiva de informações, mas como compromisso com a integridade dos processos. Independência não como retórica, mas como prática verificável em nomeações, decisões e condutas. Responsabilização não como espetáculo ou instrumento de disputa, mas como aplicação consistente da lei, com devido processo e sem seletividade.
Sem isso, o sistema não entra em colapso.
Ele continua operando.
Mas passa a operar para si mesmo.
E, nesse ponto, a pergunta deixa de ser “que fim levou?”
Resta apenas uma, mais direta — e mais incômoda:
que fim levou o pudor institucional?"
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