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Soldados desmaiam e denunciam maus-tratos em treinamento da PM no Acre: 'Pede para sair'

O Globo | 15/09/21 - 15h44 - Atualizado em 15/09/21 - 15h49
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Elevada carga de exercícios físicos, longa exposição ao sol, horas sem comer e difícil acesso à hidratação. A realidade imposta aos alunos do curso de formação de soldados da Polícia Militar do Acre provocou cinco desistências na primeira semana de treinamento. E também resultou em denúncias de maus-tratos.

Reginaldo Ribeiro da Silva, de 34 anos, era um dos alunos do curso iniciado em 1º de setembro. No terceiro dia de treinamento, ele desmaiou duas vezes. Silva relata que após o segundo desfalecimento foi humilhado e coagido a desistir do curso, tendo inclusive escutado a frase que ficou famosa no filme Tropa de Elite.

— Eu tive dois desmaios e consegui voltar do primeiro. Mas do segundo eu não dei conta. Eu fiquei tonto, aéreo, só ouvi ele (instrutor) gritando 'pede pra sair', para assinar. Foi muita pressão psicológica, então assinei o documento sem consciência que estava assinando meu desligamento do curso — afirmou. Silva conta que "apagou" depois do curso e percebeu o que havia ocorrido apenas no dia seguinte, quando abriu o WhatsApp e notou que tinha sido excluído de todos os grupos relacionados à PM.

A portaria com sua desistência foi publicada no Diário Oficial em 8 de setembro. Nesta mesma data, ele protocolou um requerimento pedindo uma reconsideração, com a alegação de que assinou o documento durante um momento de "confusão mental".

Silva foi aprovado no concurso 2017. No entanto, a corporação não o admitiu em uma fase posterior à prova escrita. Ele então recorreu à Justiça e somente neste ano conseguiu iniciar o curso de formação, junto com os que ficaram no cadastro de reserva.

— Não esperaram nem eu contar a história como aconteceu e publicaram no Diário Oficial. Então vou procurar os meus direitos. Eu acredito que houve animosidade comigo, porque eu entrei na Justiça. Ficavam sempre me perguntando se eu usava drogas, se eu era de facção criminosa, se eu batia em mulher. Tive um tratamento diferenciado desde o primeiro dia — disse. Procurada pelo GLOBO, a Polícia Militar informou que foi instaurado um procedimento administrativo para averiguar os fatos relatados por Silva, relacionados ao seu desligamento do curso de formação de soldados.

Culpa do aluno - Outros quatro alunos assinaram a desistência do curso. Uma mulher publicou fotos dos pés feridos e um homem registrou suas mãos machucadas, com a carne exposta, após os treinamentos. De acordo com a PM, as bolhas nos pés foram ocasionadas pelo atrito com o calçado que o aluno não tinha hábito de usar. Em relação às mãos, a corporação disse que as lesões ocorreram porque o exercício foi executado de forma errada pelo aluno.

A corporação afirmou que havia uma ambulância com uma equipe médica à disposição dos alunos e aqueles que se machucaram passaram a não executar atividades que pudessem piorar suas lesões. Mas apesar dos problemas relatados na primeira semana de treinamento, a PM considera as situações relatadas como corriqueiras nos cursos de formação.

"Não é anormal que alguns alunos se sintam mal, que não consigam permanecer por muito tempo em pé, desmaiem, bem como se machuquem durante as atividades, considerando ainda as condições climáticas do Estado do Acre nesta época do ano", afirmou a PM.

"Exposição ao sol, longos períodos em pé, grandes deslocamentos com equipamentos pesados, por vezes a pé, horas sem comer, difícil acesso à hidratação, são situações vivenciadas por policiais militares diariamente, em seus serviços operacionais", diz a nota.

A polícia afirma ainda que a carreira militar é executada sob forte estresse, lidando com conflitos sociais, e por esse motivo o treinamento deve ser o mais parecido possível com a realidade que os soldados vivenciarão, "o que demanda, além do preparo psicológico, vigor físico, alcançado, dentre outras formas, através da rusticidade durante o treinamento".