*SUPREMA HIPOCRISIA*
Texto do escritor Emídio Morais:
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"O Brasil, a exemplo de dia de jogo da Seleção em Copa do Mundo, praticamente parou neste 15 de setembro. Tudo para assistir à reunião dos Excelentíssimos Ministros do Supremo Tribunal Federal deliberando sobre o indiscutível e lavando roupa suja. Uma roupa que, cá entre nós, parece ter saído não do cesto, mas direto do aterro sanitário.
As investigações divulgadas até agora apontam que seis dos dez togados em atividade no STF - além de um do STJ - tiveram, direta ou indiretamente (e por meio de familiares, em variados graus de relações, no mínimo, duvidosas), algum tipo de envolvimento com o famigerado banqueiro Daniel Vorcaro.
Não nos cabe aqui julgar se fulano ou beltrano tem culpa no cartório, afinal, se houve delito nessa promiscuidade com o indigitado Vorcaro, só uma investigação isenta - sem torcida política ou cálculo eleitoral - poderá mostrar. Caberá aos poderes constituídos julgar e punir, mesmo que, no meio de tanta maracutaia, esteja a fina flor da mais alta corte do país, os autoproclamados guardiões da Carta Magna.
Magistrados íntegros, em qualquer degrau da carreira, são como garis honestos: absolutamente indispensáveis para manter a sociedade limpa e sadia.
Enquanto os juízes deveriam resolver conflitos aplicando a lei com imparcialidade, os garis preservam nossa saúde recolhendo o lixo das nossas portas.
A diferença, no entanto, neste nosso 'Brasil varonil', é que os garis são invisíveis: a gente passa por eles e mal se dá ao trabalho de dar um 'bom dia'. Já para os *esses- lentíssimos* - devagar quase parando nas causas alheias, mas incrivelmente ágeis nas de interesse próprio -, estendem-se tapetes vermelhos e distribuem-se mesuras que a maioria passa longe de merecer.
E a crise do Judiciário segue seu curso com um vencedor claríssimo até aqui: o perdulário corruptor Daniel Vorcaro.
Extrema hipocrisia!
Hoje de manhã, li uma crônica poética do articulista Romero Falcão, do jornal O Poder, que traduz perfeitamente esse sentimento:
Abatimento 'Supremo'
'Quanta suprema tristeza
neste quinze de setembro.
Não, não foi surpresa,
mas tua toga, proba declara a vergonha brasileira.
A literatura se instala feito pedra na garganta.
A eminente ministra mineira invoca Clarice Lispector:
'Eu bebi na lição de Clarice Lispector: 'Eu não me perdi,
mas experimentei a perdição."
Eu, leitor, bebi no abatimento da ministra'.
Causa-nos supremo abatimento este Brasil que temos."
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