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O hábito de pedir desculpas por tudo pode começar na infância, segundo a psicologia

Por Matheus Chaves
04/09/2026
O hábito de pedir desculpas por tudo pode começar na infância, segundo a psicologia

Imagem: Kues1/Magnific

Você conhece alguém ou é do tipo de pessoa que costuma se desculpar por tudo? Saiba que, segundo a psicologia, esse hábito pode ter tido início na infância. A seguir, saiba o que dizem os especialistas sobre o comportamento e como ele foi desenvolvido no ser humano.

Pedir desculpas faz parte do desenvolvimento das relações sociais. Desde os primeiros anos de vida, as crianças aprendem que determinadas atitudes podem prejudicar outras pessoas e que reconhecer um erro é uma maneira de reparar parte desse impacto. O comportamento, portanto, não surge apenas na fase adulta: ele é construído durante o desenvolvimento e recebe influência das interações com pais, familiares e outras pessoas do convívio.

Um estudo publicado no Journal of Child Language acompanhou nove crianças entre 1 ano e 2 meses e 6 anos e 1 mês para analisar como os pedidos de desculpas apareciam nas conversas entre pais e filhos. Os pesquisadores observaram mudanças na forma como as crianças utilizavam esse recurso conforme cresciam e identificaram que os pais tinham participação importante na aquisição dessa habilidade.

Isso ajuda a explicar por que a infância é relevante quando se tenta entender a relação de uma pessoa adulta com pedidos de desculpas. A criança não nasce sabendo quando e por que deve se desculpar. Ela aprende, progressivamente, quais comportamentos são considerados inadequados e quais formas de reparação são esperadas em cada situação.

A criança aprende quando uma desculpa é necessária

Outro estudo, publicado no Journal of Family Studies, investigou como pais de crianças entre 3 e 10 anos avaliavam situações nas quais os filhos deveriam pedir desculpas. Participaram da pesquisa 483 responsáveis, que analisaram diferentes tipos de transgressão.

Os resultados mostraram que os pais consideravam importante que os filhos se desculpassem tanto em situações provocadas intencionalmente quanto em alguns casos acidentais. A pesquisa também identificou que o tipo de comportamento da criança e a pessoa afetada influenciavam a decisão dos pais de incentivarem ou não o pedido de desculpas.

Na prática, isso significa que o aprendizado envolve mais do que decorar a palavra “desculpa”. A criança começa a compreender que determinadas ações produzem consequências para outras pessoas e que uma atitude de reparação pode ajudar a reconstruir a relação.

Esse processo faz parte de um desenvolvimento social mais amplo. Estudos sobre regulação emocional mostram que as habilidades utilizadas para lidar com situações de estresse e emoções são desenvolvidas ao longo da infância, adolescência e início da vida adulta. Esse aprendizado resulta da interação entre aspectos sociais, cognitivos e emocionais.

Quando o pedido de desculpas se transforma em reflexo

Existe, porém, uma diferença entre pedir desculpas diante de um erro e utilizar a expressão automaticamente em situações nas quais não existe uma responsabilidade concreta.

Uma pessoa pode, por exemplo, pedir desculpas por ter feito uma pergunta, expressado uma opinião, solicitado ajuda ou simplesmente interrompido alguém. Nesses casos, o pedido não necessariamente está relacionado a uma transgressão. Ele pode estar funcionando como uma maneira de reduzir o desconforto de uma interação.

É nesse ponto que conteúdos de psicologia sobre o excesso de desculpas costumam relacionar o comportamento a fatores como medo de conflito, necessidade de aprovação e insegurança. O psicólogo Alberto Soria, por exemplo, aborda o pedido excessivo de perdão como um comportamento que pode estar associado à maneira como uma pessoa aprendeu a se relacionar e administrar situações de tensão.

É importante, entretanto, fazer uma distinção: isso não significa que toda pessoa que pede desculpas frequentemente tenha passado por uma infância marcada por críticas, controle ou conflitos. O comportamento pode ter diferentes origens e não constitui, isoladamente, um diagnóstico psicológico.

O papel da infância nesse processo

A relação com os adultos pode influenciar a maneira como uma criança entende culpa, responsabilidade e reparação. Quando os pais explicam por que determinada atitude prejudicou alguém e ajudam o filho a reparar o problema, o pedido de desculpas passa a fazer parte de um processo de aprendizado social.

Por outro lado, a literatura científica também mostra que experiências de infância podem influenciar a forma como uma pessoa desenvolve estratégias para lidar com emoções e situações de estresse. A revisão publicada no Australian Journal of Psychology destaca que o enfrentamento e a regulação emocional são processos que se desenvolvem durante diferentes etapas da vida e estão relacionados à adaptação diante de situações estressantes.

Isso permite compreender a infância como uma fase importante para a formação de padrões de comportamento, mas não como uma explicação única para aquilo que um adulto faz. O desenvolvimento psicológico resulta da combinação de diferentes experiências ao longo do tempo.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Matheus Chaves

Matheus Chaves

Jornalista e produtor de conteúdo com mais de nove anos de experiência em comunicação digital, produção editorial e jornalismo online.

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