Uma xícara de café pode fazer muito mais do que acordar. Segundo a pesquisadora Chaysavanh Manichanh, chefe do Grupo de Pesquisa em Microbioma do Hospital Vall d’Hebron Institut de Recerca, na Espanha, o consumo regular da bebida está associado a uma redução significativa da inflamação intestinal.
“Há estudos mostrando que o café está associado a uma redução da inflamação e, no final, é bom para a microbiota porque algumas bactérias o metabolizam”, afirmou Manichanh em entrevista ao National Geographic, publicada nesta semana.
A especialista explicou que os componentes ativos do café, principalmente polifenóis e compostos fenólicos, chegam ao cólon praticamente intactos, onde são processados por bactérias residentes. É essa interação que gera moléculas protetoras que acalmam o sistema imunológico e fortalecem a barreira intestinal.
Um estudo publicado em Nature Microbiology em 2024, o maior já realizado sobre a relação entre café e microbioma, analisou mais de 20 mil participantes e identificou a bactéria Lawsonibacter asaccharolyticus como a principal beneficiária do consumo.
A pesquisa também mostrou que o café estimula o crescimento dessa bactéria em 3,5 vezes, e que o efeito persiste mesmo com café descafeinado, o que descarta a cafeína como agente principal.
Dieta como terapia
Manichanh, que estuda a microbiota há mais de 20 anos, atualmente trabalha com especialistas em doença de Crohn e colite ulcerosa em ensaios clínicos que buscam usar a microbiota como método de diagnóstico e, futuramente, como terapia.
“Em um futuro, a dieta será usada como terapia para tratar a doença de Crohn ou a colite ulcerosa”, projetou.
A pesquisadora alertou, no entanto, que o consumo de ultraprocessados está relacionado a uma redução na diversidade da microbiota, o oposto do efeito do café. “O que vimos é que os pacientes com essas doenças comem pior, sabendo que as têm”, observou.
A especialista ressaltou que a composição da microbiota é “única como as nossas impressões digitais”, e que os próximos anos de pesquisa buscarão entender como intervenções dietéticas específicas podem ser personalizadas para cada perfil bacteriano.





