A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou nesta semana que o atual episódio de El Niño está “firmemente estabelecido” e se intensificará até atingir a categoria de “muito forte” nos próximos meses, com efeitos que elevarão o risco de secas, inundações e calor extremo em diferentes partes do planeta ao menos até fevereiro de 2027.
A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, destacou a gravidade da situação em comunicados: “Apesar do seu nome aparentemente inofensivo, o El Niño tem o potencial de desferir um golpe devastador a comunidades e economias de todo o mundo. Somos testemunhas das perturbações e da devastação causadas por secas e inundações”, disse.
Por que um fenômeno no Pacífico afeta o mundo inteiro?
O El Niño é o aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental. Quando os ventos alísios se enfraquecem, as águas quentes que normalmente ficam retidas no Pacífico ocidental, perto da Indonésia, deslocam-se para leste, alterando a circulação atmosférica global.
Segundo especialistas, é essa alteração que explica o alcance planetário do fenômeno: o calor liberado pelo oceano reorganiza os centros de pressão, desloca a corrente de jato e modifica os regimes de chuva em regiões a milhares de quilômetros de distância.
Na prática, o El Niño funciona como um “interruptor” que muda o padrão climático de boa parte do planeta.
Para o trimestre setembro-novembro de 2026, os modelos da OMM indicam temperaturas superiores à média em quase todas as áreas terrestres do globo, com mudanças específicas de precipitação:
| Região | Efeito esperado |
| Sul dos EUA e norte da Argentina | Chuvas acima do normal |
| Nordeste do Brasil e América Central | Secas ou chuvas abaixo do normal |
| Ásia do Sul (Índia) | Monções mais fracas |
| Austrália e Indonésia | Risco elevado de seca |
| Costa oeste da América do Sul | Temperaturas oceânicas muito acima da média |
Mas sobre esse episódio ser excepcional, especialistas alertam que três fatores convergem para fazer do El Niño 2026/2027 um evento de intensidade histórica:
- Aquecimento oceânico recorde: A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) elevou para 95% a probabilidade de que a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico equatorial supere 2 °C entre outubro e dezembro.
- Uma onda de Kelvin quente de grande magnitude: Um pulso de água anormalmente quente, impulsionado para leste por ventos de oeste, está se propagando pelo Pacífico central, sinal clássico de que um evento de grande intensidade está em formação.
- Pano de fundo do aquecimento global: O oceano já absorveu cerca de 90% do excesso de calor gerado pelas emissões de gases de efeito estufa. Esse calor pré-existente “alimenta” o El Niño, fazendo com que cada episódio seja mais intenso do que seria em um planeta mais frio.
O que esperar nos próximos meses?
O pico de intensidade é esperado para finais de 2026, com os efeitos climáticos persistindo ao menos até fevereiro de 2027. A OMM alerta ainda para a possibilidade de um Dipolo Positivo do Oceano Índico simultâneo, o que poderia intensificar secas e riscos de incêndios florestais ao redor da bacia do Índico.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, resumiu a preocupação: “O El Niño está adquirindo uma magnitude extraordinária. O planeta se encontra em águas desconhecidas, e essas águas estão se aquecendo.”
A OMM anunciou uma “importante mobilização” para difundir alertas precoces e coordenar a preparação de governos, organismos humanitários e setores vulneráveis. “Previsões, por si só, não evitam os perigos; as pessoas evitam”, reiterou Celeste Saulo.





