Um mecanismo gravitacional pode proteger naturalmente asteroides que compartilham a órbita com planetas do Sistema Solar.
A descoberta veio de uma pesquisa liderada por Valerio Carruba, da Faculdade de Engenharia e Ciências da Unesp, câmpus de Guaratinguetá.
O estudo mostra como esses corpos escapam de colisões ao longo de milhares de anos.
Asteroides podem ter uma espécie de escudo natural que os mantém afastados dos planetas
O trabalho conquistou o CELMEC IX Prize, entregue pela Sociedade Italiana de Mecânica Celeste e Astrodinâmica.
O estudo contou com a colaboração de cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e da Universidade de Atacama e integra o grupo Machine Learning Applied to Small Bodies.
A pesquisa foi publicada na revista Celestial Mechanics and Dynamical Astronomy.
O CELMEC IX Prize reconhece artigos originais publicados nas coleções especiais da revista, e outras duas pesquisas também foram selecionadas para o prêmio.
A proteção nasce do encontro entre dois fenômenos distintos.
A ressonância de movimento médio 1:1 faz o asteroide levar praticamente o mesmo tempo que o planeta vizinho para dar uma volta completa ao redor do Sol.
Já o mecanismo von Zeipel-Lidov-Kozai provoca variações constantes na forma e na inclinação da trajetória.
Essas variações seguem um padrão de compensação: quando a excentricidade da órbita cresce, a inclinação diminui, e o oposto também ocorre.
Em certas condições, um parâmetro chamado argumento do periélio para de girar livremente entre 0° e 360°, e passa a balançar em torno de ângulos fixos, um efeito batizado de libração, que trava a geometria orbital e afasta o asteroide de aproximações arriscadas com o planeta.
Para investigar o alcance do escudo gravitacional, a equipe rodou simulações computacionais cobrindo 100 mil anos, somando as interferências de todos os planetas do Sistema Solar e da Lua.
Essa alternância ajuda a explicar por que alguns desses corpos parecem estáveis por longos períodos e depois entram em rotas mais próximas do planeta.
Nos co-orbitais da Terra que mantiveram o estado ZLK robusto, com libração ao redor de 0° e 180°, nenhum encontro próximo apareceu nos resultados.
Já entre os objetos sem essa configuração, os encontros foram registrados normalmente.
Por que faltam asteroides no catálogo?
Encontrar esses corpos no céu é uma tarefa complicada.
Planetas rochosos têm massa bem menor que gigantes gasosos como Júpiter e Netuno, o que reduz o tamanho das zonas de estabilidade onde um co-orbital consegue se manter.
Além disso, vários desses asteroides ficam posicionados perto da direção do Sol.
No caso dos objetos ligados a Vênus, isso limita as janelas de observação a poucas semanas a cada seis anos.
Um dado das simulações reforça essa dificuldade: asteroides com excentricidade abaixo de 0,38 tenderiam a passar despercebidos pelos instrumentos atuais, conforme mostrou o levantamento da FAPESP.
Isso explica a ausência desses corpos nos catálogos existentes até agora.
Hoje são conhecidos 21 co-orbitais de Vênus, 54 da Terra (com mais 15 classificados como temporários) e 48 de Marte, enquanto nenhum foi confirmado ao redor de Mercúrio.
Nem todo co-orbital está sob esse escudo, e o asteroide 2025 TV10, identificado pelo grupo como um novo co-orbital de Vênus, não se encaixa no estado ZLK robusto, e mantém uma órbita próxima da distância mínima em relação à Terra, o que favorece aproximações ao longo de milhares de anos.
Segundo Carruba, o asteroide é muito pequeno e provavelmente seria destruído ao entrar na atmosfera em caso de colisão.
Em Marte, apenas um corpo apareceu protegido pela configuração estável: o 2017 XG62, que permanece numa geometria orbital capaz de mantê-lo afastado de encontros com outros planetas rochosos.
O encontro internacional será realizado entre 14 e 18 de setembro em San Martino al Cimino, na Itália.
Os três trabalhos premiados serão apresentados nessa ocasião, e o grupo MASB já havia recebido um prêmio CELMEC em 2023.





