Chás vendidos com a promessa de “secar a barriga” em poucos dias não eliminam gordura corporal, segundo endocrinologistas ouvidos por diferentes veículos nas últimas semanas. O efeito percebido na balança vem de perda de água ou de fezes, não de gordura, e desaparece assim que o corpo se reidrata ou volta ao ritmo intestinal normal.
“É importante diferenciar perda de peso de perda de gordura. Quando uma pessoa consome substâncias com efeito diurético ou laxativo, pode perceber uma redução momentânea no peso, mas isso não significa que o organismo eliminou gordura”, explica Maria Simões, endocrinologista da Rede de Hospitais São Camilo, para o Gazeta do Povo.
Chás com efeito diurético aumentam a eliminação de água pela urina; os de efeito laxativo estimulam o intestino, ambos podem fazer o ponteiro da balança cair, mas sem qualquer relação com redução de tecido adiposo.
“Não existe um alimento ou bebida capaz de, sozinho, provocar uma perda de peso significativa”, afirma Simões. Segundo ela, o emagrecimento depende de mudanças sustentáveis, que consideram alimentação, atividade física, sono, rotina e as particularidades de cada organismo, não de soluções isoladas e rápidas.
O risco por trás do rótulo “natural”
O apelo de produtos naturais tende a baixar a guarda de quem consome. Segundo a endocrinologista, o uso exagerado ou sem orientação de chás diuréticos e laxativos pode causar desidratação severa, desequilíbrios de sais minerais e alterações no funcionamento intestinal. “Natural não é sinônimo de inofensivo”, resume.
A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO), em conjunto com a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), já se posicionou publicamente contra o uso de chás e suplementos como tratamento para obesidade, citando problemas graves e mortes associadas ao consumo indiscriminado desses produtos.
Uma doença que exige tratamento complexo
Para especialistas, a obesidade é uma doença crônica que envolve desregulação dos hormônios responsáveis pelo controle da fome e da saciedade, o que explica por que soluções simples costumam falhar.
O tratamento adequado envolve mudança de estilo de vida, com alimentação equilibrada e atividade física regular, podendo incluir terapia farmacológica e, em casos mais graves, cirurgia bariátrica.
Um artigo de opinião publicado recentemente por uma endocrinologista resume o problema de fundo: “Na obesidade, ocorre uma desregulação dos hormônios responsáveis pelo controle da fome e da saciedade. […] essas condições deixam as pessoas mais vulneráveis a promessas de soluções rápidas. Nas redes sociais, porém, essa complexidade vira mercadoria e é reduzida a fórmulas simplistas.”
A recomendação dos especialistas não é abolir o chá da rotina, mas consumi-lo com moderação, sem atribuir a ele propriedades terapêuticas que a ciência não comprova. Quem busca emagrecer com segurança deve procurar acompanhamento de endocrinologistas, nutricionistas e profissionais de educação física, que avaliam cada caso de forma individual.





