Quais são os efeitos do despejo de ácido sulfúrico em um lago com diversos seres vivos durante 17 anos? Um experimento realizado por cientistas entre 1976 e 1993 trouxe detalhes muito interessantes ao fazer isso na tentativa de simular uma chuva ácida, problema que vinha preocupando especialistas na América do Norte e Europa.
O estudo foi realizado no Lago 223, localizado na Experimental Lakes Area (ELA), no noroeste de Ontário, no Canadá. A região reúne diversos lagos utilizados para pesquisas que permitem observar como alterações ambientais interferem nos ecossistemas. No caso do Lago 223, os pesquisadores conseguiram acompanhar a transformação da água e dos organismos durante a acidificação e também nos anos seguintes, quando o processo foi revertido.
O que os cientistas fizeram no lago
O objetivo era reproduzir em condições controladas um fenômeno que ocorria em diferentes regiões da América do Norte e da Europa: a chuva ácida provocada principalmente pela presença de compostos de enxofre na atmosfera.
Para isso, os pesquisadores adicionaram ácido sulfúrico à água do Lago 223 de maneira controlada. O procedimento começou em 1976 e fez o pH cair de aproximadamente 6,8 para perto de 5,2. A aplicação não ocorreu de uma só vez: a acidez foi aumentada gradualmente, permitindo acompanhar como diferentes componentes do ecossistema respondiam à mudança.
A experiência continuou até 1993, quando as adições de ácido foram encerradas. Durante esse período, os cientistas monitoraram características químicas da água e diferentes grupos de organismos, criando uma espécie de registro de longo prazo sobre os efeitos da acidificação.
A mudança na água afetou toda a cadeia alimentar
O aumento da acidez não atingiu apenas a composição química do lago. A alteração do pH provocou mudanças na estrutura da comunidade biológica.
Um dos trabalhos científicos realizados durante o experimento mostrou que determinadas espécies de fitoplâncton passaram a predominar, enquanto crustáceos que viviam no fundo do lago desapareceram. Também houve mudanças na presença de algas filamentosas nas áreas próximas às margens.
Os peixes também foram afetados. Um dos resultados mais importantes foi a interrupção da reprodução de algumas espécies. Isso ocorre porque a acidificação pode interferir em diferentes etapas do ciclo de vida dos animais aquáticos, atingindo ovos, larvas, disponibilidade de alimento e condições fisiológicas necessárias para a reprodução.
O problema, portanto, não estava apenas na morte direta de determinados animais. Quando uma espécie desaparece ou deixa de se reproduzir, outras que dependem dela também podem ser afetadas. Dessa forma, uma alteração química na água consegue se propagar pela cadeia alimentar.
O pH não precisava chegar ao extremo para causar mudanças
Um dos resultados mais relevantes do experimento foi justamente perceber que alterações importantes poderiam surgir antes de a água atingir níveis considerados extremamente ácidos.
Pesquisadores observaram que organismos importantes para a cadeia alimentar do lago desapareceram quando o pH ainda estava em aproximadamente 5,8. Além disso, nenhuma espécie de peixe conseguiu manter a reprodução quando o pH ficou abaixo de 5,4.
Isso ajudou a mostrar que o ecossistema possui limites diferentes para cada organismo. Uma espécie pode suportar determinada alteração durante algum tempo, enquanto outra, submetida à mesma condição, já apresenta problemas de reprodução ou desaparece.
Essa diferença é importante porque o funcionamento de um lago não depende apenas da quantidade total de organismos. A composição das espécies também determina como a cadeia alimentar funciona.
O lago conseguiu se recuperar, mas os organismos não voltaram no mesmo ritmo
À medida que o pH aumentou, algumas características do ecossistema começaram a se aproximar das condições anteriores à acidificação. O fitoplâncton, por exemplo, apresentou mudanças na composição conforme a água se tornava menos ácida.
O retorno biológico, no entanto, ocorreu de maneira desigual. Algumas espécies conseguiram reaparecer enquanto outras demoraram mais tempo ou precisaram de condições específicas para voltar.
Um exemplo é o lake chub, uma espécie de peixe que desapareceu do Lago 223 quando o pH chegou a aproximadamente 5,6. O animal só voltou a ser registrado depois que a água atingiu cerca de 6,6, em 1994, e a recuperação de sua abundância ainda levou alguns anos.
Isso demonstra que a recuperação química e a recuperação ecológica são processos diferentes. A água pode apresentar valores de pH próximos dos originais sem que a comunidade de animais e plantas retorne imediatamente à configuração anterior.





