Um gigante de mais de 40 metros tombou em uma floresta experimental em Caçador, no interior de Santa Catarina, e só foi encontrado dois meses depois. A espécie, batizada pelos moradores da região de Pinheirão, estava entre os maiores exemplares do país.
Pesquisadores da Embrapa Florestas foram ao local para tentar preservar o material genético que restava da árvore. A área fica em um terreno compartilhado com a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, onde equipes já pesquisavam a espécie havia anos.
Eventos climáticos extremos, como chuvas intensas e fenômenos do El Niño, estão entre as possíveis causas do tombamento, segundo avaliação dos pesquisadores envolvidos no caso. A estrutura imensa da árvore, somada ao solo enfraquecido, pode ter sido decisiva para o colapso.
Brotos vivos viram chance de clonagem

Quatro meses após a queda, ramos do tronco derrubado ainda emitiam brotos — um sinal de que ainda havia tecido vivo capaz de gerar cópias genéticas da árvore original. Esse achado surpreendeu o engenheiro florestal Ivar Wendling, da Embrapa, especialista em técnicas de clonagem vegetal.
Ele não se limitou ao material encontrado no chão: subiu em uma araucária vizinha, a mais de 40 metros de altura, para recolher brotos preservados na copa. Todo o material seguiu depois para a sede da Embrapa Florestas, na Região Metropolitana de Curitiba, onde o trabalho de multiplicação começou.
Como funciona a enxertia das mudas
Em estufa, cerca de 50 clones já foram produzidos a partir dos ramos resgatados, usando a técnica de enxertia. O processo se assemelha a uma cirurgia vegetal: um pedaço do Pinheirão é fixado em uma muda jovem nascida de semente, que servirá de base para o crescimento do novo exemplar.
Passados 100 dias, se o enxerto se firmar, o resultado será uma muda com 100% do material genético da árvore que caiu. É a forma encontrada pelos cientistas de impedir que séculos de informação genética desapareçam junto com o tronco tombado.
O que os anéis do tronco revelam
Um disco de madeira retirado do tronco seguiu para um laboratório no Paraná, onde passa por secagem lenta e depois por polimento, até que os anéis de crescimento fiquem visíveis. Essas marcas funcionam como um registro natural da vida da planta, camada por camada.
A dendrocronologia, técnica que interpreta esses anéis, permite calcular a idade da árvore e reconstruir o clima da região ao longo de gerações. As primeiras estimativas apontam que o Pinheirão tinha entre 400 e 500 anos quando tombou.
A Universidade Federal de Santa Catarina já trabalhou com araucárias gigantes em situação parecida: em um exemplar tombado, o professor Marcelo Scipioni identificou 325 anéis de crescimento, o que posicionava a árvore entre as 24 maiores já registradas no país.
Por que gigantes como essa tombam
Solo encharcado é apontado como um dos principais riscos para araucárias centenárias: o excesso de água enfraquece as raízes e compromete a sustentação de troncos que pesam toneladas.
Hoje, restam poucas dezenas de exemplares considerados gigantes, e a categoria exige tronco com mais de 1,50 metro de diâmetro. Santa Catarina reúne 24 árvores nessa categoria, o Rio Grande do Sul tem 15, o Paraná conta com 8 e Minas Gerais possui apenas 2.
A devastação que restringiu a espécie
A maior araucária viva do país fica na área rural de São Joaquim (SC): único exemplar com mais de 3 metros de diâmetro, com idade estimada acima de 600 anos. Casos assim, porém, são raridade diante do histórico de exploração que a espécie sofreu no Brasil.
Entre 1900 e 1970, durante o auge da indústria madeireira, a araucária foi a árvore mais explorada do território nacional. Hoje restam apenas 3% da cobertura florestal original da espécie, que antes ocupava 200 mil quilômetros quadrados no Sul do Brasil. É esse pouco que resta que mobiliza pesquisadores a tentar preservar cada fragmento genético ainda disponível.

Por que a copa alta era inacessível e agora virou oportunidade
Enquanto o Pinheirão estava em pé, com seus 44 metros de altura, a copa ficava praticamente fora do alcance dos pesquisadores. Só depois que a árvore caiu partes dela, como os ramos preservados na copa, se tornaram acessíveis.
A mesma queda que destruiu a árvore abriu a possibilidade de coletar material genético antes impossível de alcançar, mesmo em operações de resgate tradicionais.
Se conseguiram clonar o Pinheirão, por que não fazem o mesmo com outras árvores que já caíram?
A resposta está no tempo, e após a queda, o material genético perde rapidamente a viabilidade, o que reduz as chances de sucesso na clonagem. No caso do Pinheirão, os pesquisadores encontraram os brotos vivos quatro meses depois do tombamento, ainda dentro de uma janela aceitável, embora já fora da “janela ideal”.
Se o resgate tivesse demorado mais ou se a árvore tivesse sido descoberta sem essa vitalidade aparente, a clonagem seria muito mais difícil ou impossível. Por isso, quanto mais rápido a equipe chegar ao local da queda e quanto mais recente for o acidente, maiores serão as chances de preservar a genética da árvore.






