Baleias, corvos, cães e até porcos podem estar prestes a ganhar um tradutor: pesquisadores ao redor do mundo usam inteligência artificial para decifrar padrões de comunicação animal antes considerados impossíveis de analisar em escala humana.
A reportagem, publicada pela revista Scientific American reúne projetos que já produzem resultados concretos.
Rede neural identifica baleias individuais com 99% de acerto
Um dos casos mais avançados envolve os cachalotes estudados pelo Project CETI. Shane Gero, cientista da Universidade Carleton, em Ottawa, passou quase 20 anos gravando dois clãs de cachalotes no Caribe e catalogando os padrões sonoros que eles usam para se identificar, chamados codas.
Depois de decodificar manualmente parte desses padrões, os pesquisadores testaram se uma inteligência artificial conseguiria reconhecer indivíduos apenas pelo som: a rede neural acertou 99% das vezes numa amostra de baleias testadas.
O projeto já opera um microfone subaquático fixado a uma boia, gravando 24 horas por dia os cachalotes residentes na costa da Dominica.
Outro projeto, o Earth Species Project, coleta dados de diferentes espécies para treinar modelos de aprendizado de máquina capazes de reconhecer padrões de comunicação.
Seu cofundador, Aza Raskin, aposta que a tecnologia em breve vai permitir não só entender, mas também gerar sons de animais indistinguíveis dos originais: a organização já testa cantos sintéticos com tentilhões-zebra, com o objetivo de, segundo Raskin, “passar no teste de Turing do tentilhão, do corvo ou da baleia”.
Especialistas alertam para riscos de uso indevido da tecnologia
A pesquisadora Karen Bakker, autora do livro “The Sounds of Life”, alerta que operadores comerciais já usam sons de peixes para localizá-los, e que caçadores ilegais poderiam imitar cantos de animais ameaçados para atraí-los.
Segundo Bakker, introduzir sons sintéticos em populações de baleias-jubarte, por exemplo, equivaleria a “injetar um meme viral” numa espécie inteira, com efeitos imprevisíveis.
Christian Rutz, ecólogo comportamental da Universidade de St. Andrews, na Escócia, e coautor de um artigo de 2023 na revista Science, defende a criação urgente de diretrizes de boas práticas e marcos legais apropriados antes que a tecnologia avance sem controle.
“Não basta criar a tecnologia”, resume Raskin. “Toda vez que você inventa uma tecnologia, também inventa uma responsabilidade.”





