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Ele nasceu sem o braço e, aos 9 anos, decidiu construir sua primeira prótese com LEGO

Por Matheus Chaves
31/08/2026
Ele nasceu sem o braço e, aos 9 anos, decidiu construir sua primeira prótese com LEGO

Imagem: Divulgação/Lego

O dono dessa história incrível é David Aguilar, que nasceu em Andorra, situada entre a França e a Espanha, com a síndrome de Poland , uma doença responsável por fazer com que o ser humano tenha uma má formação congênita. Diante disso, ele não teve o desenvolvimento de seu braço direito, parte da musculatura das costas e também do músculo peitoral. Como uma maneira de escapar do bullying que sofria, o garoto de apenas 9 anos conseguiu construir sua primeira prótese com LEGO.

A diferença física fez parte de sua infância, mas também acabou direcionando seu interesse para a construção de objetos e para a engenharia. Segundo o Guinness, ele começou a desenvolver braços feitos de LEGO aos 9 anos. 

A primeira tentativa ainda era uma experiência de criança

A primeira prótese criada por Aguilar estava longe de apresentar a funcionalidade dos modelos que ele desenvolveria posteriormente. A estrutura era pesada e não funcionava corretamente, mas serviu para demonstrar que as peças poderiam ser utilizadas de uma maneira diferente daquela prevista originalmente.

O princípio era relativamente simples: transformar componentes modulares em uma estrutura capaz de acompanhar o movimento do corpo. A partir dessa experiência, Aguilar passou a testar novos formatos e mecanismos, aumentando gradualmente a complexidade das construções.

O LEGO acabou funcionando como uma espécie de plataforma experimental. Como as peças podem ser desmontadas e reorganizadas, ele conseguia alterar o projeto sem precisar começar tudo novamente. Essa característica permitiu que diferentes versões fossem desenvolvidas ao longo dos anos.

Aos 18 anos, criação ganhou funcionamento real

Nove anos depois da primeira tentativa, Aguilar chegou a um estágio completamente diferente. Em 2017, aos 18 anos, ele construiu a MK-I, uma prótese funcional produzida com peças do conjunto LEGO Technic Rescue Helicopter.

O modelo tinha uma articulação na região do cotovelo e uma espécie de pinça na extremidade. O mecanismo não utilizava motores: o próprio movimento do braço residual era responsável por acionar a estrutura e permitir que a pinça segurasse objetos.

A evolução mostra a diferença entre uma construção feita como experimento e um dispositivo pensado para realizar uma função específica. Na MK-I, as peças deixaram de ser apenas componentes de montagem e passaram a integrar um sistema mecânico com articulações e transmissão de movimento.

A estrutura também apresentava resistência suficiente para suportar o peso de Aguilar durante exercícios como flexões. O resultado chamou atenção porque combinava um material associado principalmente ao entretenimento infantil com uma aplicação relacionada à tecnologia assistiva. 

Guinness reconheceu a invenção

A criação de Aguilar entrou para o Guinness World Records em 2017 como a primeira prótese funcional de braço construída com peças de LEGO. O reconhecimento transformou o projeto desenvolvido pelo jovem em um caso documentado de aplicação de componentes do brinquedo para uma finalidade de engenharia. 

A trajetória também rendeu a Aguilar o apelido de “Hand Solo”, em referência ao personagem Han Solo, de Star Wars, e à sua condição de pessoa que desenvolveu uma prótese utilizando a própria criatividade.

O reconhecimento, porém, não encerrou o projeto. Aguilar continuou modificando seus modelos e passou a trabalhar com estruturas cada vez mais sofisticadas.

Como funcionam as versões mais avançadas

A evolução chegou a modelos motorizados e com diferentes formas de controle. Entre eles está a MK-V, que possui cinco dedos e utiliza motores e sensores para realizar os movimentos. Nesse caso, a prótese já não depende apenas de uma articulação mecânica simples: pequenos movimentos do braço residual podem ser utilizados para controlar o sistema. 

Essa mudança é importante porque amplia a capacidade de utilização da prótese. Enquanto a MK-I dependia diretamente da movimentação física para acionar a pinça, versões posteriores incorporaram componentes eletrônicos capazes de transformar comandos do usuário em movimentos mecânicos.

O projeto também levou Aguilar a estudar Bioengenharia na Universitat Internacional de Catalunya, na Espanha. Dessa forma, aquilo que começou como uma experiência com LEGO passou a ser complementado por conhecimento acadêmico relacionado ao desenvolvimento de soluções para o corpo humano. 

A invenção passou a ajudar outras crianças

Um dos desdobramentos mais importantes ocorreu quando Aguilar decidiu construir próteses para outras pessoas. Em 2021, ele desenvolveu uma estrutura para Beknur Zhanibekuly, um menino de 8 anos que nasceu com os braços não desenvolvidos.

O projeto foi adaptado às necessidades da criança e utilizou peças que custaram cerca de 15 euros. O sistema possuía uma pinça e podia ser acionado por um cabo conectado ao pé, permitindo que Beknur controlasse o movimento da prótese.

Outra versão desenvolvida para o menino incorporou uma solução para interação com telas sensíveis ao toque. O mecanismo utilizava uma ponta capaz de transmitir a eletricidade natural do corpo, permitindo o uso de dispositivos como celulares e tablets.

Esse tipo de adaptação mostra que uma prótese não precisa apenas substituir visualmente uma parte do corpo. O objetivo principal de uma tecnologia assistiva é permitir que o usuário execute determinadas tarefas com mais autonomia, e isso exige que o projeto seja ajustado às necessidades de cada pessoa.

De uma brincadeira a uma solução de tecnologia assistiva

A história de David Aguilar mostra uma transformação progressiva. Aos 9 anos, ele utilizou peças de LEGO para tentar criar uma estrutura que pudesse compensar a ausência do antebraço. Aos 18, conseguiu desenvolver uma prótese funcional reconhecida mundialmente. Depois, passou a incorporar motores, sensores e diferentes mecanismos de controle aos projetos.

O ponto central não está apenas no material utilizado. O LEGO funcionou como uma ferramenta acessível para testar conceitos de construção, movimento e engenharia antes que Aguilar aprofundasse esses conhecimentos academicamente.

Dessa forma, uma experiência iniciada na infância acabou seguindo uma trajetória que combina deficiência, criatividade, engenharia e tecnologia assistiva. O projeto deixou de atender somente a uma necessidade individual e passou a buscar uma aplicação mais ampla: desenvolver próteses que possam ser mais acessíveis para pessoas que não conseguem arcar com os custos de modelos convencionais. 

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Matheus Chaves

Matheus Chaves

Jornalista e produtor de conteúdo com mais de nove anos de experiência em comunicação digital, produção editorial e jornalismo online.

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