Um estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou a presença de bisfenóis, substâncias usadas na fabricação de plásticos de policarbonato e resinas, em caranguejos coletados em Pernambuco e no Ceará.
A pesquisa, conduzida pelo Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da própria universidade, foi publicada na revista científica internacional Marine Environmental Research.
Amostras vieram de manguezais de Fortim e Itapissuma
As amostras foram coletadas em 2025 nos municípios de Fortim, no Ceará, e Itapissuma, no Grande Recife, região pernambucana. Segundo a UFC, este é o primeiro estudo a analisar a presença de bisfenóis tanto na urina quanto na hemolinfa, equivalente ao sangue dos crustáceos, dos caranguejos.
A substância foi encontrada nos dois líquidos, em concentrações maiores na hemolinfa e em níveis mais altos nos animais de Fortim. Os bisfenóis chegam aos manguezais por meio de resíduos domésticos e industriais, esgoto e outras fontes de poluição.
Entre as substâncias identificadas estão os bisfenóis A (BPA), F (BPF) e C (BPC). Em alguns casos, as concentrações foram classificadas como “alarmantes” pelos próprios pesquisadores, especialmente o bisfenol F encontrado em caranguejos da espécie Cardisoma guanhumi, coletados em Fortim.
No Brasil, a legislação proíbe apenas o uso de BPA em mamadeiras e em produtos alimentícios voltados a crianças menores de 3 anos; o BPA é conhecido por interferir no funcionamento do sistema endócrino.
Substituto do BPA pode ter risco parecido, alerta pesquisador
“O BPF vem sendo utilizado como substituto do BPA em diversos produtos, mas estudos científicos já indicam que ele também apresenta atividade de desregulação endócrina e pode causar efeitos tóxicos semelhantes”, disse o professor Rivelino Cavalcante, um dos responsáveis pela pesquisa, à Agência UFC.
Cavalcante ressalta que a pesquisa não avaliou diretamente os efeitos da exposição em seres humanos, e que os caranguejos foram analisados vivos, antes de qualquer preparo culinário, o que ainda deixa em aberto como os contaminantes se comportam depois do cozimento.
“Isso não quer dizer que uma pessoa terá um problema de saúde após consumir um único caranguejo, mas indica que o consumo frequente e contínuo de organismos contaminados pode aumentar o risco de efeitos associados aos desreguladores endócrinos”, explicou o pesquisador.
O estudo não recomenda a interrupção do consumo de caranguejos, alimento importante para a cultura, a economia e a segurança alimentar de comunidades da região.
A recomendação dos pesquisadores é que o poder público invista na redução da poluição que chega aos rios e manguezais, além de aprofundar o monitoramento da contaminação nesses ecossistemas.





