Alimentos processados e ultraprocessados precisam de determinadas substâncias para se manterem em perfeito estado para consumo, evitando assim que se deteriorem ou adquiram bactérias e fungos. Nesse processo, um dos principais elementos utilizados são os conservantes. Porém, um estudo inédito e recente publicado na revista científica European Heart Journal fez uma ampla investigação e constatou que oito produtos desse tipo estão associados a pressão alta. Continue a leitura e confira!
Pesquisa acompanhou mais de 112 mil pessoas
A investigação faz parte da coorte francesa NutriNet-Santé e acompanhou 112.395 adultos entre 2009 e 2024. Os pesquisadores utilizaram registros alimentares detalhados para estimar a exposição dos participantes aos aditivos presentes nos produtos consumidos, incluindo informações sobre marcas comerciais.
O acompanhamento teve duração mediana de 7,9 anos na análise relacionada às doenças cardiovasculares e de 7,6 anos para a hipertensão. Ao longo desse período, foram identificados 5.544 novos casos de pressão alta e 2.450 ocorrências de doenças cardiovasculares.
Um dos diferenciais da metodologia foi justamente o nível de detalhamento sobre a alimentação. Os voluntários preencheram repetidos registros alimentares de 24 horas, chegando a até 96 registros por pessoa. Com isso, os cientistas conseguiram relacionar os alimentos consumidos aos ingredientes utilizados na fabricação de cada produto.
Esse procedimento é importante porque alimentos industrializados costumam reunir diferentes características que também podem estar relacionadas à saúde cardiovascular. Ao considerar variáveis da alimentação e outros fatores, os pesquisadores procuraram reduzir a possibilidade de que os resultados fossem explicados simplesmente pelo padrão alimentar dos participantes.
O que os conservantes têm a ver com a pressão arterial?
Os conservantes alimentares têm funções diferentes. Alguns atuam principalmente contra microrganismos, enquanto outros ajudam a impedir alterações provocadas pela oxidação. Na prática, essas substâncias permitem aumentar a vida útil dos produtos e preservar determinadas características durante o armazenamento.
A pesquisa separou os compostos justamente de acordo com essas propriedades. Entre os participantes que apresentaram maior exposição total aos conservantes, a incidência de hipertensão foi 24% maior em comparação com aqueles nas categorias de menor consumo.
Quando a análise considerou especificamente os conservantes não antioxidantes, a associação foi ainda mais elevada: o grupo com maior exposição apresentou risco relativo 29% maior de desenvolver hipertensão. Essa mesma categoria também foi relacionada a uma incidência 16% maior de doenças cardiovasculares.
Isso não significa, porém, que os pesquisadores tenham demonstrado que os aditivos provocam diretamente o aumento da pressão arterial. O desenho da pesquisa é observacional: ele identifica relações estatísticas entre exposição e ocorrência de doenças, mas não consegue estabelecer sozinho uma relação de causa e efeito.
Quais são os oito conservantes relacionados à hipertensão?
A análise individual identificou oito aditivos que apresentaram associação estatisticamente significativa com uma maior incidência de hipertensão após os ajustes utilizados pelos pesquisadores.
Entre eles está o sorbato de potássio (E202), conservante empregado em diferentes alimentos e bebidas. Na análise, ele apresentou uma das associações mais fortes com a pressão alta. Também apareceu o metabissulfito de potássio (E224), pertencente ao grupo dos sulfitos.
Outro componente identificado foi o nitrito de sódio (E250), utilizado principalmente na conservação de carnes processadas. A exposição mais elevada esteve relacionada a uma incidência 16% maior de pressão alta.
A lista inclui ainda três substâncias da família dos ascorbatos e eritorbatos: ácido ascórbico (E300), ascorbato de sódio (E301) e eritorbato de sódio (E316). Apesar de algumas dessas substâncias terem correspondentes naturais nos alimentos, a pesquisa analisou especificamente sua utilização como aditivos.
O ácido cítrico (E330), encontrado em diversos produtos industrializados, também apareceu entre os compostos associados à hipertensão. Completa a lista o extrato de alecrim (E392), utilizado principalmente por suas propriedades antioxidantes.
Vitamina C também apareceu na análise
Um dos resultados que mais chama atenção é a presença do ácido ascórbico, identificado pelo código E300. Quimicamente, trata-se da vitamina C, substância que ocorre naturalmente em frutas e vegetais e também pode ser adicionada a alimentos industrializados.
No estudo, entretanto, o foco não estava na vitamina C obtida naturalmente pela alimentação, mas na exposição ao composto quando utilizado como aditivo. Além disso, foi o único dos aditivos individuais analisados que apresentou associação estatisticamente significativa com doenças cardiovasculares.
A diferença é importante porque a origem da substância pode mudar a interpretação do resultado. O organismo pode entrar em contato com o mesmo composto químico por meio de uma fruta, por exemplo, ou por sua utilização tecnológica em um produto industrializado. A pesquisa não conclui que a vitamina C presente naturalmente nos alimentos tenha o mesmo efeito observado para o aditivo.
Estudo não prova que os conservantes causam hipertensão
Apesar da associação encontrada, os resultados precisam ser interpretados com cautela. O trabalho não foi um ensaio clínico no qual pesquisadores controlaram a quantidade de conservantes consumida pelos participantes. Por isso, não é possível afirmar que os oito aditivos sejam responsáveis diretamente pelo surgimento da hipertensão.
Os autores também reconhecem a necessidade de novos estudos epidemiológicos e de pesquisas experimentais para entender quais mecanismos biológicos poderiam explicar as associações observadas. A própria publicação destaca que os resultados precisam ser confirmados antes de estabelecer conclusões definitivas sobre os efeitos cardiovasculares desses compostos.
Ainda assim, o nível de detalhamento da pesquisa permite investigar uma questão que estudos anteriores tinham dificuldade de avaliar: não apenas a quantidade de alimentos industrializados consumidos, mas quais aditivos estavam efetivamente presentes nesses produtos.
Isso é relevante porque a composição pode variar entre alimentos semelhantes e até entre marcas diferentes. No NutriNet-Santé, a utilização das informações comerciais dos produtos permitiu uma estimativa mais específica da exposição aos conservantes.
O que os resultados significam para a alimentação?
A pesquisa não propõe abandonar as atuais recomendações alimentares nem demonstra que um alimento contendo determinado conservante necessariamente provocará hipertensão. A principal implicação apontada pelos pesquisadores é a necessidade de aprofundar a avaliação da segurança desses compostos considerando sua presença disseminada na alimentação industrializada.
Os próprios autores destacam que os resultados complementam, e não contradizem, padrões alimentares que priorizam frutas, vegetais, leguminosas, peixes e fibras e recomendam limitar carnes processadas, excesso de sal e outros componentes associados ao risco cardiovascular. Eles também apontam que, quando possível, optar por versões frescas ou minimamente processadas dos alimentos pode reduzir a exposição a diferentes aditivos utilizados pela indústria.
Portanto, o estudo acrescenta uma nova camada à discussão sobre a relação entre alimentos industrializados e saúde cardiovascular. Em vez de apontar apenas para um ingrediente isolado, a pesquisa mostra que diferentes classes de conservantes apresentaram associações com a incidência de hipertensão e, em alguns casos, com doenças cardiovasculares.
O próximo passo é descobrir se essas relações permanecem em outras populações e, principalmente, se existe um mecanismo biológico capaz de explicar os efeitos observados. Até que isso seja esclarecido, os resultados devem ser entendidos como uma evidência epidemiológica relevante, mas não como prova de que esses conservantes causam pressão alta.





