Um estudo publicado no The Australian Journal of Language and Literacy questiona o modo como as escolas australianas ensinam a argumentação e sugere que a ênfase na persuasão como objetivo central da escrita pode estar diminuindo a capacidade dos jovens de participar de um debate público saudável.
A pesquisa é assinada pela professora Emily Frawley, da Faculdade de Educação da Universidade de Melbourne. A educadora analisou os critérios de avaliação do currículo de inglês da etapa final do ensino médio no estado de Victoria, conhecido como Victorian Certificate of Education (VCE).
O trabalho, intitulado “Dialogism for democracy: reimagining argumentation in English curriculum“, conclui que até 60% das tarefas de escrita avaliadas se concentram em convencer e fechar retoricamente um argumento, sem exigir um engajamento genuíno com perspectivas divergentes.
Em resumo, a avaliação da pedagoga é que o ensino está focado em “vencer debates”, mas sem necessariamente abrir espaço para o entendimento, o que pode formar pessoas que são capazes de defender seus pontos, mas com baixa capacidade de reflexão.
Ensinar a “vencer” e não “ouvir”
Frawley descreve o ponto de partida da investigação a partir de sua própria experiência como professora. Ao revisar um discurso sobre se os esportes femininos deveriam receber a mesma cobertura midiática dos masculinos, ela sugeriu a um aluno que considerasse, de forma respeitosa, o ponto de vista contrário.
Acontece que, segundo a educadora, o estudante lhe respondeu dizendo que não havia nada nos critérios de avaliação que exigisse esse tipo de abertura.
“Não há nada nos critérios de avaliação que exija um engajamento genuíno com uma diferença de opinião. Então, por que os alunos deveriam tentar ser mais conciliatórios ao apresentar um ponto de vista?”, questiona Frawley.
A pesquisadora utiliza a teoria do dialogismo do filólogo russo Mikhail Bakhtin como enquadramento teórico para distinguir entre formas monológicas e dialógicas de argumentação.
Na primeira, o objetivo é afirmar uma posição e encerrar o debate; na segunda, o argumento é entendido como uma negociação entre múltiplas vozes, aberta à revisão e ao reconhecimento da complexidade.
O que o estudo propõe?
Frawley não defende a eliminação da escrita persuasiva do currículo. “Saber construir uma posição e comunicá-la de forma eficaz continua sendo uma habilidade importante”, afirma. O que o estudo propõe é:
- Ampliar os gêneros de escrita argumentativa ensinados ao longo da educação básica, incluindo práticas de escuta, revoicing de pontos de vista opostos e reflexão;
- Reformular as rubricas de avaliação para que meçam explicitamente como o escritor se posiciona, reconhece os limites de suas afirmações e representa o desacordo sem desqualificação;
- Alinhar currículo e avaliação para que a intenção dialógica não seja subvertida pela lógica do exame de alto risco.
Segundo estudiosos na área, o artigo de Frawley situa a análise em um diagnóstico mais amplo sobre o estado do debate público na Austrália e no mundo. Em um cenário de crescente polarização política e enfraquecimento do discurso cívico.
Nesse caso, a autora argumenta que a ausência do diálogo na argumentação escolar faz com que ela se torne “um ato de autoafirmação em vez de reconhecimento mútuo”, algo que é mais para alimentar o ego de cada aluno do que de fato aprender.
“Se pudesse incutir uma única habilidade em meus alunos, seria esse respeito e abertura para as diferenças dos outros. É a conversa, não a convicção, que os jovens mais precisam ao encontrarem conflito em suas relações pessoais, em seus avatares digitais, no palco nacional e internacional”, escreve Frawley.





