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Estudo revela quantos brasileiros recorreram ao chamado “kit Covid” durante a pandemia

Por Jeferson da Rosa
23/09/2026
Estudo revela quantos brasileiros recorreram

Estudo revela quantos brasileiros recorreram ao chamado "kit Covid" durante a pandemia - Imagem: Pixabay

Quatro em cada dez brasileiros que contraíram o coronavírus usaram medicamentos sem eficácia comprovada contra a doença, segundo um levantamento conduzido durante a pandemia e divulgado agora. 

A pesquisa revela dados sobre o consumo do chamado “kit covid”, combinação de cloroquina, ivermectina e azitromicina que circulou amplamente no país apesar da falta de respaldo científico.

A pesquisa, publicada na Revista de Saúde Pública, analisou dados do Epicovid, um dos estudos mais abrangentes já realizados sobre covid-19 no Brasil. 

O levantamento ouviu 9,5 mil pessoas infectadas em 133 municípios de todas as regiões do país, o que deu representatividade nacional à amostra.

Estudo revela quantos brasileiros recorreram ao chamado “kit Covid” durante a pandemia

Entre as pessoas que tiveram covid-19, 60% relataram ter recorrido a algum medicamento para combater a infecção. 

Antitérmicos lideraram as escolhas: foram mencionados por 53% dos entrevistados, seguidos pelos antibióticos em geral, citados por 36%.

A azitromicina, antibiótico que integra o kit, foi citada por 27% dos participantes. Ivermectina e cloroquina apareceram, respectivamente, em 23% e 12% dos relatos.

Consideradas em conjunto, as três substâncias do kit tiveram 39% dos relatos. 

Os números se baseiam em autorrelatos, sem verificação de prescrição médica ou detalhes de como o consumo ocorreu na prática.

Romina Buffarini, epidemiologista da Universidade Federal de Pelotas e uma das autoras do trabalho, avalia que os números podem subestimar a realidade. 

A pesquisa contabilizou apenas pessoas com diagnóstico confirmado de covid-19 e deixou de fora quem ingeriu os remédios de forma preventiva, sem infecção comprovada. 

Esse grupo, segundo ela, não foi incluído nos números divulgados.

Este é o primeiro levantamento com alcance nacional a medir especificamente o consumo desses medicamentos no país. 

A Anvisa e outras entidades internacionais não reconhecem ou contraindicam o uso do kit covid, enquanto o governo chegou a considerar mudanças na bula da cloroquina para indicá-la no tratamento da infecção.

Renda familiar mais baixa e menor escolaridade foram associadas a um consumo maior dos remédios, resultado que surpreendeu os pesquisadores. 

Em outras análises, o uso de medicamentos costuma estar ligado ao aumento da renda. Neste caso, ocorreu o oposto.

A maioria dos relatos veio das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com destaque entre mulheres e pessoas de 40 a 59 anos. 

Esse recorte etário também contrariou as expectativas dos pesquisadores, já que o consumo de medicamentos tende a ser mais comum entre idosos.

Confiança na ciência não impediu o uso

Os participantes também informaram seu grau de confiança em cientistas. Os pesquisadores cruzaram essa informação com os dados sobre o uso do kit covid. 

Entre os que desconfiavam da ciência, 43% relataram ter usado algum dos três medicamentos.

Entre os que afirmavam confiar em cientistas, 38% também relataram ter usado o kit. 

A diferença entre os dois grupos não foi estatisticamente significativa. Isso indica que a confiança na ciência não foi fator determinante para o consumo.

A disseminação desses remédios foi apoiada por profissionais e estudos preliminares. 

Alguns desses estudos foram posteriormente contestados ou identificados como fraudulentos. 

Esse histórico pode explicar por que até quem confiava na ciência acabou recorrendo às substâncias.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Jeferson da Rosa

Jeferson da Rosa

Jornalista apaixonado pela profissão.

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