Quem divide quarto com alguém que diz frases soltas durante a noite já deve ter se perguntado se isso é normal.
A resposta, segundo a psicologia do sono, é sim: falar dormindo é uma parassonia, nome dado a comportamentos do corpo ou da mente que surgem enquanto a pessoa dorme, como pesadelos e sonambulismo.
Na maior parte dos casos, esse hábito não representa risco à saúde. Ele só chama atenção quando se repete com frequência suficiente para perturbar quem dorme ou quem está por perto.
Entender o que se passa no cérebro durante o sono ajuda a explicar por que a boca continua funcionando enquanto o corpo descansa.
Falar enquanto dorme nem sempre indica um problema de saúde, mas alguns sinais podem precisar de cuidados
Uma noite de sono não é um bloco único: o corpo atravessa fases distintas que se repetem em ciclos de cerca de 90 minutos.
O sono REM, ligado aos sonhos mais vívidos, ocupa cerca de um quarto do tempo total, enquanto o restante, entre 75%. E 80% da noite, é sono não REM, quando o organismo se regenera e desacelera de fato.
Entre os profissionais da área, esse conjunto de estágios recebe o nome de arquitetura do sono.
No início da noite, predomina a fase não REM. Nas primeiras horas da manhã, o sono REM ganha espaço, o que explica por que os sonhos mais marcantes costumam surgir perto do horário de acordar.
Mesmo com o corpo praticamente parado, o cérebro segue trabalhando durante a noite, ativando regiões diferentes conforme o estágio do sono avança.
É nesse período que boa parte das memórias recentes se fixa de forma duradoura, o crescimento acontece nas crianças e o sistema de defesa do corpo ganha reforço.
Por isso, dormir o suficiente é tratado como prioridade em qualquer fase da vida.
Adolescentes precisam de 8 a 10 horas de sono por noite; crianças de 3 a 5 anos, de 10 a 13 horas; e as de 6 a 12 anos, de 9 a 12 horas.
Por que a boca continua falando dormindo e quando é necessário preocupação?
A fala noturna resulta de um desencontro dentro do cérebro: as áreas ligadas à linguagem permanecem ativas enquanto as responsáveis por bloquear os movimentos da boca já estão em repouso.
Esse descompasso libera sons que, na maioria dos casos, nem chegam a formar palavras completas, são murmúrios, risos ou sussurros soltos no meio da noite.
Quando surge uma palavra reconhecível, a mais frequente é “não”, presente em cerca de 5% do que é dito durante o sono.
Em geral, as palavras são perguntas e, às vezes, palavrões; raramente são expressões educadas, e o fenômeno pode aparecer em qualquer estágio do sono.
Durante o sono REM, o que uma pessoa diz em voz alta enquanto dorme corresponde ao que ela está sonhando naquele momento em cerca de 80% das vezes.
Em cerca de metade dos casos, ela também responde a perguntas ou afirmações feitas em voz alta, embora não haja evidências de que revele segredos ou informações que preferiria manter ocultas.
Falar durante o sono é bastante comum, com mais de dois terços das pessoas vivenciando o fenômeno em algum momento da vida.
O comportamento é muito mais frequente na infância, período em que as crianças têm maior proporção do chamado sono não REM de ondas lentas, que diminui conforme se envelhece.
Pessoas que falam dormindo tendem a dormir menos, mais de uma hora e meia a menos por noite, e têm aproximadamente metade do sono REM em comparação com quem não apresenta o comportamento.
O fenômeno também é mais comum quando se está muito cansado. Assim, falar dormindo é considerado normal e não representa risco à saúde.
Mas se o comportamento se repete com frequência alta o suficiente para atrapalhar o descanso de quem fala ou de quem convive com a pessoa todas as noites, ou se aparecem outras parassonias como sonambulismo, terrores noturnos ou incontinência urinária noturna, é recomendável procurar um psicólogo do sono.
Essas parassonias tendem a se tornar menos comuns conforme se envelhece, e existem tratamentos disponíveis.




