Fenômenos climáticos que antes se limitavam a episódios pontuais e restritos a pequenas áreas agora se encadeiam e tomam proporções continentais, numa escala que preocupa cientistas ao redor do mundo. Diante dessa escala inédita, especialistas passaram a adotar uma nova expressão para nomear o fenômeno: tempestade de calor.
Nos anos 1960, o maior episódio do tipo cobriu uma fração pequena da superfície terrestre, 6%, e se estendeu por 46 dias, atingindo o Oceano Atlântico, trechos da América Latina e da África Ocidental.
O quadro mudou completamente nas últimas décadas: um episódio registrado entre 2023 e 2024 se espalhou por cerca de 85% do globo ao longo de 367 dias ininterruptos, chegando até regiões polares e impactando quase toda a população mundial.
Como cientistas definiram as tempestades de calor
Pesquisadores analisaram padrões de temperatura desde 1960 para mais de um milhão de quadrículas que cobrem todo o globo. Uma onda de calor comum é definida como cinco ou mais dias consecutivos de temperaturas anormalmente altas.
Foi assim que a Reuters passou a classificar como tempestade de calor os episódios que, no auge, chegam a cobrir uma área equivalente a 1% da superfície do planeta, extensão próxima à metade do território canadense.
A comparação é ilustrativa: chamar esses fenômenos de amplitude continental de “ondas de calor” seria como chamar uma monção de aguaceiro. Os números refletem a escala da transformação climática que o planeta atravessa.
A frequência desses eventos extremos cresceu exponencialmente, e na década de 1960, havia uma média de cerca de cinco tempestades de calor ativas por ano, um episódio raro. Nesta década, esse número saltou para uma média de cerca de 102 por ano, uma mudança que afeta bilhões de pessoas.
A intensidade também mudou. A maior onda de calor já registrada elevou as temperaturas em algumas regiões das Filipinas a 38°C, provocando cenários de extremo sofrimento em escolas do país, na maioria delas sem ar-condicionado.
Impactos devastadores na Europa e América do norte
Uma tempestade de calor assolou a Europa durante a maior parte de junho e julho, causando temperaturas recorde em várias cidades. Bordeaux, Budapeste e Bilbao enfrentaram suas marcas históricas mais altas, com Bilbao atingindo 42,7 graus Celsius.
O calor deformou trilhos ferroviários de aço e as estimativas governamentais apontam mais de 10.000 mortes adicionais em uma única semana.
Enquanto isso, no sul da Louisiana, a mesma onda de calor agravou uma seca histórica de meses, desencadeando o que o governador chamou, conforme informou a Reuters, de “o pior incêndio florestal que vimos desde, pelo menos, a Segunda Guerra Mundial”, além de cerca de 600 outros incêndios apenas em agosto.
Passados dois meses dos incêndios de agosto, resíduos de fogo que ainda ardiam em uma área pantanosa geraram uma nuvem densa de fumaça, batizada de “superneblina”, que reduziu a visibilidade na rodovia a ponto de provocar uma colisão em cadeia com ao menos 158 veículos e sete mortes.
Os dados revelam uma tendência preocupante: o planeta não apenas está esquentando, como está produzindo eventos de calor extremo com frequência e magnitude sem precedentes. A tempestade de calor de 367 dias entre 2023 e 2024 marcou um novo patamar na história climática registrada, atingindo latitudes polares e afetando praticamente toda a humanidade na Terra.





