Quando um filho chega à universidade, consegue um emprego melhor remunerado ou tem acesso a oportunidades que os pais nunca tiveram, a reação esperada é o orgulho familiar.
Para muitos, porém, o avanço profissional traz uma emoção inesperada: culpa.
Psicólogos chamam esse fenômeno de “culpa pelo sucesso familiar”, e ele afeta especialmente quem foi o primeiro da família a chegar ao ensino superior.
Filhos bem-sucedidos podem despertar um sentimento inesperado nos próprios pais
A culpa não surge simplesmente de um bom desempenho acadêmico ou profissional.
O sentimento emerge quando o progresso pessoal se combina com a percepção de ter acesso a oportunidades que outros membros da família não conseguiram, e com a sensação de se distanciar daqueles que ficaram para trás.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz dedicaram anos a estudar como esse conflito emocional funciona e por que atinge com força especial os filhos de primeira geração.
Uma das principais pesquisadoras do fenômeno é Rebecca Covarrubias.
Com Stephanie Fryberg, ela estudou como a experiência universitária despertava culpa em estudantes que eram os primeiros da família a chegar ao ensino superior.
Em 2015, publicaram na revista Cultural Diversity & Ethnic Minority Psychology um estudo com 121 universitários: 53 eram filhos de primeira geração, e 68 tinham pais com experiência universitária.
Os estudantes de primeira geração apresentaram níveis significativamente mais altos de culpa vinculada aos seus sucessos.
O efeito foi particularmente forte entre participantes latinos de primeira geração.
A pesquisa revelou que a percepção das dificuldades enfrentadas pelos familiares estava diretamente ligada a esse sentimento de culpa.
As quatro dimensões do sentimento e como a universidade transforma a distância
Os pesquisadores identificaram que a culpa pelo sucesso familiar se manifesta de quatro formas distintas.
- A primeira é a sensação de estar deixando a família para trás.
- A segunda surge ao reconhecer que se tem privilégios e oportunidades que os familiares nunca tiveram.
- A terceira é a culpa por se tornar alguém diferente com as novas experiências.
- A quarta é a pressão de não desperdiçar a oportunidade recebida.
A educação superior muda mais do que a formação acadêmica: novos círculos sociais, vocabulário diferente, expectativas profissionais e até disparidades econômicas modificam gradualmente quem a pessoa é.
Ao entrevistar em profundidade 34 estudantes latinos e asiáticos de baixa renda e primeira geração, Covarrubias ouviu relatos recorrentes de que o avanço acadêmico vinha acompanhado de uma crescente sensação de diferença em relação aos familiares.
Esses estudantes descreveram o acesso a privilégios que não faziam parte de suas famílias, choques culturais, pressões econômicas e a sensação clara de deixar para trás pessoas que amavam.
O progresso não produz ruptura inevitável, há quem consiga manter laços sólidos apesar das mudanças.
Isso explica por que um sucesso desejado pode vir acompanhado, ao mesmo tempo, por emoções difíceis e contraditórias.





