Cientistas encontraram 14 fungos isolados de cinco espécies do gênero Trichoderma em áreas de vegetação nativa e em plantações irrigadas de melão na Bahia e no Piauí.
Trichoderma asperellum, Trichoderma asperelloides, Trichoderma koningiopsis, Trichoderma virens e Trichoderma spirale compõem o grupo mapeado pela pesquisa e podem ajudar a proteger as lavouras contra doenças.
A forma como essas comunidades se organizam muda conforme o tipo de uso do solo e a química de cada terreno estudado.
Fungos encontrados na Caatinga mostram potencial para proteger áreas contra doenças
A paisagem da Caatinga é marcada por chuva escassa, calor forte e plantas resistentes à seca.
É o único bioma exclusivo do território brasileiro e, entre os biomas do país, o que menos recebeu atenção da biotecnologia.
Esse cenário deixou boa parte de sua diversidade microbiana fora do radar da ciência.
Mesmo com esse cenário árido, o cultivo irrigado cresceu na região nas últimas décadas, puxado por culturas rentáveis como o melão.
A expansão trouxe doenças de solo difíceis de controlar, provocadas por fungos e oomicetos que apodrecem as raízes e causam murcha nos vasos das plantas.
O problema reduz a colheita nas lavouras irrigadas do semiárido nordestino.
Conhecer a interação entre microrganismos benéficos e patógenos ajuda a reduzir a dependência de fungicidas químicos na lavoura.
Especialistas dizem que esse conhecimento também ajuda a construir uma agricultura mais preparada para as mudanças climáticas.
Espécies de Trichoderma já são aplicadas no mundo para esse fim.
Esses fungos disputam nutrientes com os patógenos, parasitam outros fungos, produzem substâncias tóxicas contra eles e podem estimular mecanismos naturais de defesa das plantas.
O gênero não age só contra doenças: várias de suas espécies estimulam o crescimento vegetal.
Elas também dão às plantas mais resistência para enfrentar seca prolongada e solos com excesso de sal, justamente os desafios do clima semiárido.
Confrontos de laboratório contra cinco patógenos
A pesquisa testou duas formas de ataque dos fungos benéficos contra os causadores de doenças.
Uma delas é o contato direto, quando um fungo devora o outro para se alimentar.
A outra ocorre por meio de gases liberados no ar, que barram o crescimento do inimigo sem contato físico.
Cinco microrganismos entraram nos testes: Fusarium sulawesiense, Fusarium solani, Macrophomina phaseolina, Rhizoctonia solani e Pythium myriotylum.
A estratégia mais eficaz mudou de acordo com o adversário.
Contra Rhizoctonia solani e Macrophomina phaseolina, o contato direto foi mais eficaz, e os isolados de Trichoderma avançaram rapidamente sobre os rivais.
Já contra Pythium myriotylum e Fusarium solani, os compostos liberados no ar fizeram a diferença e reduziram em mais de 70% o avanço do patógeno em alguns testes.
Os isolados coletados nas lavouras de melão suportaram temperaturas mais altas do que os retirados da vegetação nativa.
Esse dado sugere uma adaptação ao ambiente agrícola irrigado do semiárido, marcado por calor intenso e grandes variações de temperatura ao longo do dia.
A resistência a altas temperaturas pode facilitar o desenvolvimento futuro de bioinsumos, já que muitos microrganismos comerciais perdem força quando levados para climas diferentes do seu local de origem.
Uma equipe com participação da Universidade Federal de Minas Gerais integra o grupo de pesquisa que obteve esses resultados.
A restauração de áreas degradadas no semiárido tende a trazer de volta fungos e bactérias nativos, o que recupera funções ecológicas perdidas com o desmatamento.
O tema ganha peso diante do avanço da seca na Caatinga, que já provocou queda de 16% na produtividade do feijão e de 35% na do milho.





