Quase três anos após a morte de Pelé, em 29 de dezembro de 2022, a fortuna deixada pelo maior ídolo do futebol brasileiro continua sendo liquidada na Justiça, sem que os herdeiros tenham recebido suas cotas.
Propriedades residenciais e comerciais estão sendo colocadas à venda para quitar débitos com credores e instituições financeiras antes de qualquer beneficiário acessar o patrimônio. O patrimônio total do ex-jogador do Santos e da Seleção Brasileira é estimado entre R$ 50 milhões e R$ 80 milhões, segundo a coluna Entretê, do portal Terra.
Esse montante ainda aguarda validação oficial nos autos do inventário. Depois da quitação de todas as dívidas, o valor remanescente será distribuído aos beneficiários do testamento.
Como o testamento de Pelé distribui a herança
A viúva Márcia Aoki ficou com 30% do patrimônio no testamento, incluindo a residência onde vivia com o ex-jogador no Guarujá, litoral de São Paulo. Como Edson Arantes do Nascimento se casou depois dos 70 anos, o casal teve de adotar o regime de separação de bens, o que influenciou a divisão sucessória.
Os 70% restantes foram divididos entre sete filhos biológicos e Gemima Lemos Macmahon, cuja paternidade socioafetiva foi reconhecida pela Justiça, garantindo-lhe o direito de participar da partilha. Entre os filhos estão Edinho, Kely, Jennifer, Flávia, Joshua e Celeste.
A herança também reserva uma parcela para Sandra Regina Arantes do Nascimento Felinto, falecida em 2006. Seus dois filhos, Octavio e Gabriel, atuam como representantes legais dela no processo sucessório.
Empréstimos bancários e impostos atrasados de imóveis complicam o cumprimento do testamento. O pagamento dessas dívidas ocorre lentamente e retarda o acesso dos beneficiários ao patrimônio que lhes foi destinado. Uma pessoa com conhecimento do inventário informou à redação que os herdeiros descrevem a espera como terrível e muito injusta.
Márcia Aoki deixou a mansão do Guarujá e entregou as chaves a Edinho. Segundo seu advogado, Luiz Kignel, ela se sentiu solitária e decidiu sair por causa do alto custo de manutenção da propriedade. Mudou-se para um apartamento, e a casa, que tem elevadores, exigia um investimento alto, e Márcia permanecia reclusa em respeito ao luto.
Edinho foi indicado para assumir o cargo de inventariante após Márcia abrir mão dessa responsabilidade.
Quando Pelé se casou após os 70 anos, a lei obrigou o casal a adotar o regime de separação de bens. Isso significa que, diferentemente de casamentos convencionais, a viúva não teria direito automático aos bens do falecido apenas por ser esposa.
Para que Márcia Aoki pudesse receber parte da herança, Pelé precisava deixar isso explícito em testamento, o que ele fez, designando 30% do patrimônio para ela. Sem essa manifestação escrita em vida, mesmo sendo viúva, ela não teria participação alguma na partilha dos bens.

O que significa o processo estar sigiloso para os herdeiros e a população
Quando a Justiça decretou o segredo de Justiça no inventário de Pelé, o processo deixou de ser público. O público em geral não tem acesso aos detalhes sobre quanto cada herdeiro vai receber, quais são as dívidas exatas e como os bens estão sendo vendidos.
A decisão foi justificada pela fama mundial de Pelé: tornar tudo público traria inconvenientes e tornaria inútil a tentativa de preservar a privacidade. Na prática, as informações sobre a herança circulam apenas entre os envolvidos no processo e a Justiça, não entre curiosos ou jornalistas.
A expectativa inicial era resolver o inventário em poucos meses, caso as partes chegassem a um acordo. Se os herdeiros discordarem sobre a divisão dos bens, porém, o processo deixa de ser “amigável” e passa a tramitar como litígio. Nesse caso, não há prazo para a conclusão, e o processo pode se arrastar por tempo indeterminado.
Havia ainda a possibilidade de uma nova herdeira ser identificada por exame de DNA, o que também complicaria o andamento do caso e atrasaria a distribuição dos bens aos herdeiros já conhecidos.





