No extremo norte do Chile, a cidade de Arica passou 172 meses sem que uma gota de chuva caísse, de outubro de 1903 a janeiro de 1918. A Organização Meteorológica Mundial reconhece esse intervalo como o maior período seguido sem precipitação já registrado em todo o mundo.
Mesmo com esse histórico de extrema aridez, a cidade não parou de crescer. Atualmente com uma população que ultrapassa 240 mil pessoas, a cidade reúne praias, museus e vestígios de uma ocupação humana milenar.
O deserto mais árido com gente vivendo nele
O Guinness World Records confirma que Arica é o lugar mais seco entre os habitados, com base em uma média anual de apenas 0,76 milímetro de chuva registrada durante 59 anos. Quem nasce ou se muda para a região vive sob umidade praticamente nula, embora o oceano Pacífico banhe seu litoral.
Ainda assim, o número de habitantes não parou de subir: dados do Instituto Nacional de Estatísticas do Chile, reunidos pela Biblioteca do Congresso Nacional, mostram que a comuna tinha 221.364 moradores em 2017 e chegou a 241.653 em 2024, alta de 9,2%.
As praias, a fama de “cidade da eterna primavera” e a proximidade do Pacífico atraem quem busca viver ou passar uma temporada na região.
De acordo com a Nasa, a combinação de fatores explica a falta de chuvas: uma corrente marítima fria esfria o ar próximo ao Atacama e reduz sua capacidade de reter umidade, um sistema de alta pressão que raramente se desfaz bloqueia a formação de tempestades, e a cordilheira dos Andes impede a chegada de umidade vinda de outras regiões.
O Morro de Arica é uma formação rochosa com cerca de 130 metros de altura. De lá, é possível ver a cidade e o litoral; o morro também funciona como referência geográfica e ponto de lazer urbano.
Milhares de anos antes de Arica existir, os Chinchorro exploravam os recursos marinhos da região e desenvolveram as práticas de mumificação artificial mais antigas conhecidas.
Sítios arqueológicos associados a essa cultura foram inscritos na lista de Patrimônio Mundial da Unesco em 2021. Entre eles estão Colón 10 e Faldeo Norte del Morro de Arica, ambos na zona urbana.
O Museu Arqueológico de San Miguel de Azapa, situado no vale de Azapa, também reconhecido pela produção de azeitonas, exibe peças dessa civilização ancestral. A Catedral de San Marcos foi erguida em 1876 pela companhia Eiffel, no local onde um terremoto destruiu uma igreja anterior em 1868, e o edifício tem valor histórico e religioso.
A aproximadamente nove quilômetros do centro, a área úmida na desembocadura do rio Lluta oferece abrigo e alimento para mais de 165 espécies de aves residentes e migratórias, segundo dados do portal Chile Travel. O local mostra que, mesmo sob aridez extrema, há refúgios onde a fauna prospera.
Quem eram os Chinchorro e como viviam na costa árida
Os Chinchorro foram povos caçadores-coletores marinhos que habitaram a costa do Pacífico entre o sul do Peru e o norte do Chile entre 7.400 a.C. e 2.840 a.C.
Eles viviam em grupos de 30 a 50 pessoas com vínculos de parentesco, em assentamentos semipermanentes geralmente localizados em foz de rios e riachos, aproveitando a umidade e os recursos naturais desses pontos, mesmo em meio ao deserto.
A divisão de trabalho entre os Chinchorro mostra como se adaptavam ao ambiente: mulheres e crianças pescavam e coletavam moluscos e plantas silvestres em áreas próximas, enquanto homens caçavam em zonas mais distantes ou nadavam para capturar mamíferos marinhos. A alimentação incluía vieiras, mexilhões, peixes, algas, tomates e hortelã.
Esses recursos ajudavam a explicar como, mesmo sob aridez extrema, os grupos se estabeleceram de forma permanente e desenvolveram uma civilização complexa.





