Pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) concluíram o mapeamento do genoma da pirapitinga, peixe nativo da Amazônia, em parceria com a Academia Chinesa de Ciências da Pesca.
O sequenciamento atingiu 99,8% de completude, organizado em nível cromossômico, o que abre caminho para selecionar exemplares mais resistentes e produtivos para a criação em cativeiro.
A pirapitinga (Piaractus brachypomus) é o terceiro maior peixe de escamas das bacias amazônicas, podendo ultrapassar 80 centímetros e chegar a 20 quilos na fase adulta. Seus dentes fortes e achatados são adaptados para triturar castanhas, sementes e frutos que caem nas matas alagadas, hábito que também faz da espécie uma dispersora natural de sementes pelos rios durante as cheias. O nome vem do tupi-guarani e significa algo como “peixe claro”, em referência à cor prateada de suas escamas.
Como a pesquisa nasceu na China
O estudo é resultado da tese de doutorado da bióloga Ivana Felipe da Rosa, do Instituto de Biociências da Unesp em Botucatu, orientada pelo professor Rafael H. Nóbrega.
Originalmente, a pesquisadora estudava o pacu, outro peixe nativo brasileiro, mas mudou o foco depois de ganhar uma bolsa para um período na Universidade de Shandong, na China.
Para manter o projeto, ela precisava de um genoma de referência, e a pirapitinga surgiu como opção por ser próxima geneticamente do pacu e por já ser criada comercialmente no país asiático desde 1985, quando teria chegado por meio da piscicultura ornamental.
A distância entre a produção brasileira e a chinesa
A comparação entre os dois países mostra o tamanho do desafio, em 2023, a China produziu mais de 55 milhões de toneladas de pescado por aquicultura, enquanto o Brasil registrou cerca de 792 mil toneladas, equivalente a 1,44% do volume chinês.
Apesar de abrigar uma das maiores biodiversidades de peixes de água doce do planeta, o país conta com apenas cerca de dez genomas de espécies nativas mapeados até agora, segundo a pesquisadora.
O espaço que a tilápia pode dividir
Hoje, a tilápia, peixe de origem africana, responde por cerca de 65% da produção aquícola brasileira. Com o genoma da pirapitinga mapeado, cientistas poderão investigar quais genes estão ligados a crescimento, resistência a doenças e tolerância ao calor, um passo necessário antes de qualquer programa de melhoramento genético.
O avanço não muda a produção de imediato, mas cria uma ferramenta que pode, no futuro, aumentar a participação de espécies nativas na aquicultura nacional e reduzir a dependência de peixes exóticos.





