De acordo com dados da Tábuas da Mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil vem envelhecendo mais nos últimos anos, ou seja, a expectativa de vida tem aumentado no país. O tempo médio atual é de 76,6 anos, sendo que as mulheres geralmente estão chegando a 79,9 anos e os homens a 73,3 anos. O cenário é animador, pois isso mostra que os idosos podem aproveitar mais tempo de vida sem trabalhar. Por outro lado, o custo para se manter tem empurrado cada vez mais pessoas da melhor idade para a volta às atividades profissionais.
Um levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) mostrou que entre 2012 e 2024, houve um aumento de 68,9% no número de idosos com mais de 60 anos e que estão exercendo alguma atividade profissional. Para se ter ideia, em 2012, haviam 4,9 milhões pessoas dessa faixa etária trabalhando. Já em 2024, o número subiu para 8,5 milhões.
Esse crescimento acontece justamente enquanto o perfil demográfico do país passa por uma mudança significativa. A população está vivendo mais e, consequentemente, o período que precisa ser sustentado depois da aposentadoria também pode ficar maior. Na prática, isso faz com que a renda acumulada ao longo da vida precise atender a uma etapa cada vez mais longa.
O custo de viver mais
A longevidade é uma conquista, mas também cria novas necessidades financeiras. Uma pessoa que passa mais anos na aposentadoria terá pela frente mais tempo de gastos com alimentação, moradia, transporte, medicamentos e serviços de saúde.
Esse último item merece atenção especial porque o envelhecimento costuma aumentar a necessidade de acompanhamento médico e de tratamentos contínuos. Com isso, uma parcela maior do orçamento pode ser direcionada para despesas que não podem simplesmente ser adiadas ou eliminadas.
É nesse ponto que o aumento da expectativa de vida se encontra com a necessidade de continuar trabalhando. Para alguns idosos, permanecer ou retornar ao mercado representa uma forma de complementar a renda e manter o padrão de consumo. Para outros, pode ser uma necessidade para conseguir pagar as despesas básicas.
O fenômeno, portanto, não pode ser interpretado apenas como uma mudança no comportamento profissional da população mais velha.
A informalidade muda o cenário
Outro ponto importante está na qualidade dessas ocupações. Segundo o levantamento do FGV IBRE, 53,8% dos trabalhadores com 60 anos ou mais estão na informalidade. Entre os idosos que possuem até o ensino fundamental completo, esse percentual chega a 68,5%.
Isso ajuda a explicar uma das dificuldades enfrentadas por quem precisa continuar gerando renda depois dos 60 anos. A permanência no mercado de trabalho não garante necessariamente acesso a empregos estáveis ou com proteção trabalhista.
A informalidade pode facilitar a entrada em determinadas atividades, mas também deixa o trabalhador mais exposto à variação da renda e à ausência de direitos associados a uma relação formal de emprego. Para um idoso que depende do dinheiro obtido com o trabalho para complementar a aposentadoria, essa instabilidade pode representar um problema adicional.
Um novo desafio para o Brasil
O aumento da quantidade de idosos trabalhando mostra que o envelhecimento da população já está produzindo consequências econômicas concretas. O país não está apenas ganhando habitantes mais velhos. Está formando uma população que permanece por mais tempo em uma etapa da vida na qual as fontes tradicionais de renda, como aposentadorias e pensões, precisam sustentar um período mais longo.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho terá de lidar com uma quantidade maior de profissionais acima dos 60 anos. Isso envolve adaptar funções, combater a discriminação por idade e criar oportunidades compatíveis com diferentes níveis de capacidade física e experiência.
O cenário também reforça a importância do planejamento financeiro ao longo da vida. Quanto maior o período esperado de aposentadoria, maior tende a ser a necessidade de construir fontes de renda capazes de acompanhar essa longevidade.
Dessa forma, o envelhecimento brasileiro apresenta uma contradição importante: viver mais é uma conquista, mas garantir renda suficiente durante esses anos se transforma em um desafio cada vez maior. O crescimento de 68,9% no número de idosos trabalhando entre 2012 e 2024 mostra que parte da população já está respondendo a essa realidade com a permanência ou o retorno ao mercado profissional.





