Imagine um olival que continua produzindo normalmente mesmo depois de receber milhares de painéis solares. É exatamente isso que está sendo feito em Vilches, na província de Jaén, na Espanha. O projeto combina agricultura e geração de energia no mesmo espaço e foi planejado para preservar todas as árvores existentes.
A iniciativa é da empresa agroalimentar Acesur, em parceria com a Greening e com a Universidade de Jaén. Ao todo, são mais de 5.150 módulos fotovoltaicos instalados em uma área de olival ainda produtiva. O sistema terá potência de 3,65 MWp e contará também com uma bateria de 3 MWh para armazenar parte da eletricidade gerada.
Painéis ficam acima das oliveiras
A principal dificuldade do projeto estava justamente em conciliar os painéis com a atividade agrícola. As oliveiras tradicionais da região chegam a aproximadamente dois metros de altura, mas as máquinas utilizadas na colheita são consideravelmente maiores.
Por isso, as estruturas metálicas que sustentam os módulos foram instaladas a mais de quatro metros do solo. A altura permite que os equipamentos agrícolas passem por baixo dos painéis sem interromper o trabalho realizado no olival. Dessa forma, a instalação de energia não exige a retirada das árvores nem impede a colheita mecanizada das azeitonas.
A solução é um exemplo de agrivoltaica, modelo que procura utilizar a mesma área para atividades agrícolas e produção de eletricidade. Em vez de substituir o cultivo por uma usina solar, a tecnologia é integrada à plantação.
Como funciona a solução
A disposição dos painéis não foi definida apenas pela quantidade de energia que eles podem produzir. A posição das estruturas precisa considerar também o crescimento das árvores, a passagem dos veículos agrícolas e a incidência de luz sobre o cultivo.
Pesquisadores da Universidade de Jaén já estudaram essa configuração para olivais mediterrâneos. Em um trabalho publicado na revista Applied Energy, foi analisada a instalação de módulos a cerca de quatro metros de altura, permitindo que máquinas utilizadas na produção atravessem as fileiras de árvores.
No projeto de Vilches, essa lógica permite manter 100% das oliveiras existentes em produção. Ao mesmo tempo, a energia solar passa a ser gerada no próprio terreno, criando uma segunda utilização para a área agrícola.
Energia será usada na indústria
A eletricidade produzida não terá como destino principal uma nova fazenda ou uma rede distante. Os painéis estão instalados próximos à unidade de envasamento da Acesur em Vilches, que utiliza a energia em suas operações industriais.
A empresa informou que a instalação foi planejada para ampliar o autoconsumo e reduzir a dependência da rede elétrica. A bateria de 3 MWh também tem uma função importante nesse processo, já que permite armazenar energia e utilizá-la de maneira mais adequada às necessidades da fábrica.
Isso muda a lógica do projeto: não se trata apenas de construir uma usina solar sobre uma plantação. O objetivo é conectar produção agrícola, geração fotovoltaica e armazenamento de energia dentro de uma mesma operação industrial.
Projeto também vai medir o impacto sobre as árvores
A área escolhida para a instalação possui cerca de cinco hectares. Uma parcela superior a 20% do terreno permanecerá sem os painéis para funcionar como área de controle.
Essa divisão permitirá que pesquisadores comparem as oliveiras que ficam sob a estrutura fotovoltaica com aquelas que continuam recebendo luz solar sem a interferência dos módulos. Entre os aspectos observados estão produtividade agrícola, estresse hídrico e temperatura do solo.
O controle é importante porque a presença dos painéis altera a quantidade de radiação que chega ao cultivo. Embora a estrutura tenha sido projetada para preservar a atividade agrícola, o desempenho das árvores ainda precisa ser acompanhado durante os ciclos de produção.
Por esse motivo, ainda não é possível afirmar qual será o efeito definitivo da instalação sobre a produtividade do olival. O projeto precisa passar por períodos completos de cultivo e colheita para que os pesquisadores tenham dados suficientes para comparar as duas condições.
Modelo pode reduzir a pressão sobre áreas agrícolas
A experiência em Vilches também responde a um problema que acompanha a expansão da energia solar: a disputa pelo uso do solo. Grandes instalações fotovoltaicas precisam de áreas extensas e, em algumas regiões agrícolas, isso pode gerar conflito com plantações existentes.
A agrivoltaica procura reduzir esse problema ao permitir que a geração de eletricidade aconteça sem necessariamente eliminar a atividade agrícola. No caso do olival espanhol, a altura das estruturas foi determinada principalmente pela necessidade de manter as máquinas de colheita em funcionamento.
Assim, o projeto transforma uma limitação em parte da solução. Em vez de retirar as oliveiras para instalar os painéis, a estrutura foi elevada para que a produção agrícola continue acontecendo embaixo dela.
A instalação de Vilches terá conclusão prevista para 2028 e faz parte de uma estratégia mais ampla de descarbonização da Acesur. A expectativa é combinar a geração solar com armazenamento e outras tecnologias para diminuir as emissões da unidade industrial sem abrir mão do olival que permanece em produção.





