A Organização Meteorológica Mundial (OMN), um braço da ONU focado em meteorologia, clima e recursos hídricos, divulgou um relatório importante no último dia 17 de setembro.
O documento mostra que rios, aquíferos e geleiras vêm encolhendo, um cenário que tem chamado a atenção de cientistas.
O relatório inclui o Brasil entre os países afetados, apontando que Nordeste e Centro-Oeste mantêm níveis reduzidos de água subterrânea desde 2022.
ONU emite alerta para o Brasil ao perceber queda das reservas de água subterrânea
Segundo a agência da ONU, o leste do país apresentou reservas terrestres inferiores ao esperado, ao mesmo tempo em que 2025 se tornou um dos piores anos para a vazão dos rios em três décadas e meia.
No mesmo período, as bacias do São Francisco e do Prata tiveram vazões que ficaram entre baixas e muito baixas em comparação ao padrão histórico.
Enquanto isso, a Bacia Amazônica também vem enfrentando redução constante desde 2021.
Lagos, geleiras, solo úmido e depósitos subterrâneos formam, juntos, o que a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, descreveu como uma espécie de poupança da natureza.
Saulo indicou que essa reserva vem sendo consumida sem reposição suficiente, o que reduz a capacidade do planeta de suportar secas prolongadas sem entrar em crise.
Normalmente, esse fundo de reserva funciona como amortecedor: absorve os períodos ruins para que uma estiagem isolada não vire emergência de abastecimento.
Em 36% das bacias monitoradas, a vazão ficou abaixo do padrão em 2025.
Há sete anos as bacias em condição normal não passam de minoria: em 2025, essa faixa ficou entre 34% e 38% do total, patamar inferior à média de 46% observada entre 1991 e 2020.
Chuva e nível dos rios oscilam em semanas, enquanto aquíferos e camadas de gelo demoram anos ou décadas para se recompor.
É justamente esse tipo de reserva, de recuperação lenta, que vem murchando desde o intervalo entre 2014 e 2016, segundo o levantamento da OMM.
Dois terços dos poços monitorados no planeta apresentaram, em 2025, condições fora do padrão histórico, um retrocesso em relação a 2024.
As geleiras também emagreceram pelo quarto ano seguido em todas as grandes regiões do globo, com perda de 408 gigatoneladas no ciclo hidrológico de 2025, o equivalente a 1,1 milímetro de elevação nos oceanos.
O aviso chega no mesmo mês em que a ONU sinalizou que o mundo deve superar, ainda nesta década, a barreira de aquecimento prevista pelo Acordo de Paris. Isso tende a acelerar tanto o degelo quanto a subida do nível do mar.
El Niño amplia risco de seca e enchente, e impacto econômico já é global
Para o Brasil, a situação ganha um agravante: o El Niño tem probabilidade superior a 90% de atingir intensidade muito forte no segundo semestre de 2026, segundo dados do governo federal.
Os efeitos tendem a ser desiguais pelo território, menos chuva no Norte e no Nordeste, mais volume no Sul e risco de ondas de calor no Sudeste e no Centro-Oeste.
Na Bacia Amazônica, o governo prevê vazões abaixo da média histórica e alerta para níveis críticos já em meados de outubro.
O Nordeste, por sua vez, deve enfrentar forte redução na recarga dos açudes, cenário que pode obrigar o bombeamento adicional de água pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco.
Fora do Brasil, o quadro reforça que a escassez de água deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Entre 2023 e 2025, a perda acumulada de geleiras somou 1.400 gigatoneladas, aproximadamente um terço de toda a retirada anual de água doce no mundo.
Ásia e África concentraram, entre 2021 e 2025, ao menos metade dos eventos extremos ligados à água e mais de 80% das mortes associadas a esses desastres.
No Sul e no Sudeste Asiático, ciclones e monções intensas provocaram até 3.600 mortes. Na Jamaica, o furacão Melissa consumiu 41% do PIB local.
No Sri Lanka, o ciclone Ditwah chegou a comprometer parcela próxima de 4% da economia nacional.
Diante da redução das reservas, a ONU defende que os países que dividem bacias hidrográficas passem a trocar informações entre si, adotem critérios semelhantes de monitoramento e conectem seus sistemas de alerta precoce.





