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Porcos deixados para alimentar náufragos em 1807 sobreviveram isolados por gerações em uma ilha remota

Por Jeferson da Rosa
23/09/2026
Porcos deixados alimentar náufragos sobreviveram

Porcos deixados para alimentar náufragos em 1807 sobreviveram isolados por gerações em uma ilha remota - Imagem: Pixabay

Em 1807, o capitão Abraham Bristow soltou porcos domésticos nas ilhas Auckland, um arquipélago a cerca de 560 quilômetros da Nova Zelândia. 

O objetivo era deixar uma reserva viva de alimento para possíveis náufragos nas águas violentas do arquipélago.

Quando, 192 anos depois, uma expedição chegou lá para resgatar alguns exemplares, descobriu uma população única: pequena, magra e notavelmente resistente. 

O frio, a chuva e os ventos fortes das ilhas Auckland tornavam os naufrágios comuns no século 19.

Quando o navio General Grant afundou, em 1866, os porcos deixados décadas antes ajudaram os sobreviventes a passar 18 meses no arquipélago.

Porcos deixados para alimentar náufragos em 1807 sobreviveram isolados por gerações em uma ilha remota

Novas introduções de porcos ocorreram em 1842 e na década de 1890, ampliando a população no local. 

Sem predadores naturais e sem qualquer intervenção humana, os animais precisaram se adaptar por conta própria ao ambiente hostil. 

Comiam raízes, larvas encontradas sob pedras, vegetação rasteira e até carcaças trazidas pelas ondas.

Essas duas gerações de isolamento deixaram marcas profundas, e os porcos de Auckland desenvolveram-se pequenos, esguios e visivelmente atléticos, exatamente o oposto dos exemplares volumosos e pesados da criação comercial moderna. 

Focinhos alongados e pelagem abundante completavam essa adaptação a um dos ambientes mais inóspitos do planeta.

O ecossistema das ilhas Auckland nunca havia abrigado grandes mamíferos terrestres antes da chegada desses animais. 

Os porcos reviravam o solo em busca de alimento, destruindo ninhos, ovos e filhotes de aves marinhas no processo. 

Algumas espécies de aves precisaram deslocar seus locais de reprodução para áreas mais inacessíveis, em uma luta pela sobrevivência contra os novos predadores.

A Nova Zelândia passou a considerar porcos, cabras, coelhos, gado e gatos introduzidos obstáculos à restauração do arquipélago. 

O que havia sido concebido para salvar vidas humanas tornou-se, séculos depois, alvo de um programa de eliminação ambiental.

A expedição que salvou um tesouro genético

Enquanto o governo buscava remover esses animais, a Rare Breeds Conservation Society viu algo completamente diferente: quase dois séculos de evolução isolada concentrados em uma única manada.

Em 1999, exatamente 192 anos após a primeira soltura documentada, uma expedição chegou às Auckland equipada com cães farejadores para localizar e capturar exemplares em terreno extremamente difícil.

A missão conseguiu retirar 17 porcos, incluindo várias fêmeas prenhes, e os levou para quarentena em Invercargill. 

A captura garantiu a preservação dessa linhagem única mesmo se a população selvagem nas ilhas desaparecesse completamente.

O isolamento prolongado manteve essa população afastada de muitos dos agentes infecciosos comuns entre suínos de criação comercial. 

Embora não fossem completamente livres de vírus, os porcos de Auckland podiam ser mantidos com um status sanitário muito controlado, uma raridade que despertou interesse imediato da pesquisa biomédica.

As células das ilhotas pancreáticas desses animais, responsáveis pela produção de insulina, passaram a ser estudadas como possível fonte de transplantes humanos por meio do xenotransplante. 

Em um ensaio clínico experimental com pacientes diabéticos tipo 1, 14 pessoas receberam células encapsuladas provenientes de doadores das ilhas Auckland.

Pesquisadores testaram os porcos e as preparações para 26 microrganismos. 

Durante pelo menos um ano de acompanhamento, não detectaram nos receptores a transmissão dos vírus suínos analisados. 

Pesquisadores também investigaram a possível utilidade desses animais em outras áreas da xenotransplantação, embora esses tratamentos ainda não tenham se estabelecido clinicamente.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Jeferson da Rosa

Jeferson da Rosa

Jornalista apaixonado pela profissão.

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