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Sintomas desconhecidos fazem muitas mulheres demorarem anos para descobrir a apneia do sono

Por Matheus Chaves
26/09/2026
Sintomas desconhecidos fazem muitas mulheres demorarem anos para descobrir a apneia do sono

Imagem: Benzoix/Magnific

A apneia do sono é uma doença na qual a pessoa sofre pausas na respiração enquanto está dormindo. O programa pode acarretar em uma série de complicações cardiovasculares. Por isso, é essencial que seja descoberto de maneira rápida para que haja o início do tratamento. Porém, uma revisão científica publicada em março de 2026 trouxe à tona o fato de que sintomas desconhecidos são responsáveis por fazer com que as mulheres demorem mais para descobrir o distúrbio.

O trabalho, publicado na revista Pulmonary Therapy, analisou as evidências disponíveis sobre diagnóstico e tratamento da apneia obstrutiva do sono em mulheres. Os pesquisadores destacaram que a condição ainda é subdiagnosticada nesse grupo e que a manifestação dos sintomas pode não corresponder à imagem mais conhecida da doença.

Apneia pode aparecer de maneira diferente nas mulheres

A apneia obstrutiva do sono ocorre quando a passagem de ar pelas vias respiratórias superiores sofre obstruções repetidas durante o sono. Essas interrupções podem fragmentar o descanso e provocar alterações na oxigenação.

O problema é que nem todas as mulheres apresentam o quadro mais facilmente reconhecido, marcado por ronco intenso, pausas perceptíveis na respiração e sonolência durante o dia.

Na revisão, os autores apontam que mulheres relatam com frequência sintomas como cansaço durante o dia, insônia, ansiedade, depressão e sensação de que o sono não foi reparador. Dores de cabeça pela manhã e dificuldades relacionadas à concentração também aparecem entre as manifestações descritas.

Essa diferença pode fazer com que a origem do problema não seja imediatamente relacionada ao sono. Uma pessoa que procura atendimento por insônia, por exemplo, pode não imaginar que episódios repetidos de obstrução respiratória estejam ocorrendo durante a noite.

Até 75% das mulheres podem não ter diagnóstico

Um dos dados destacados pelos pesquisadores chama atenção para a dimensão do subdiagnóstico. Segundo a revisão, até 75% das mulheres que apresentam apneia obstrutiva do sono permanecem sem saber que possuem o distúrbio.

Isso acontece, em parte, porque os instrumentos tradicionalmente utilizados para identificar a doença não contemplam adequadamente algumas manifestações mais frequentes entre mulheres.

Os questionários de triagem podem dar maior peso a características como ronco, sonolência excessiva e determinados fatores físicos. Quando outros sintomas ocupam o primeiro plano, existe o risco de a suspeita de apneia não surgir durante uma consulta.

Insônia pode esconder o problema

A dificuldade para dormir está entre os sinais que podem dificultar a identificação da doença. Em vez de perceber claramente as interrupções respiratórias, algumas mulheres podem experimentar diversos despertares durante a noite. Como esses episódios podem ser muito breves, a própria paciente nem sempre consegue identificá-los.

O resultado é uma sensação de que o sono está ruim, mas sem uma explicação evidente. A pessoa pode associar o problema à ansiedade, ao estresse ou a mudanças na rotina, enquanto a causa também pode estar relacionada à fragmentação provocada pela apneia.

Uma pesquisa observacional publicada em 2026 encontrou entre mulheres com apneia maior frequência de dificuldade para adormecer, sono não reparador, perda de memória, dificuldade de concentração, ansiedade, depressão e dores de cabeça matinais.

Cansaço também pode ser interpretado de outra maneira

Outro sinal que merece atenção é a fadiga. A sensação constante de falta de energia pode aparecer depois de noites nas quais o sono foi interrompido diversas vezes. Porém, como o sintoma possui muitas causas possíveis, ele não necessariamente leva o profissional de saúde a investigar um distúrbio respiratório do sono.

A revisão de 2026 destaca justamente que mulheres podem apresentar fadiga e outros sintomas durante o dia sem manifestar a sonolência excessiva considerada típica da apneia. Essa diferença contribui para que o problema passe despercebido. Por isso, avaliar somente a presença de sono durante o dia não é suficiente para descartar a possibilidade de apneia.

Menopausa também entra nessa relação

As mudanças hormonais ao longo do envelhecimento feminino são outro aspecto considerado pelos pesquisadores. A frequência da apneia tende a aumentar durante a transição para a menopausa e depois dela. Ao mesmo tempo, esse período pode trazer alterações no sono, ondas de calor, mudanças de humor e outros sintomas que também podem interferir no descanso.

Essa sobreposição dificulta separar o que está relacionado às mudanças hormonais e o que pode indicar um distúrbio respiratório. Uma revisão publicada em 2026 destaca que a prevalência de alterações do sono é maior durante a perimenopausa e a pós-menopausa e inclui condições como insônia e apneia obstrutiva. Por isso, sintomas persistentes durante essa fase não devem ser automaticamente atribuídos apenas à menopausa.

O organismo também apresenta diferenças durante o sono

A dificuldade de identificar a apneia em mulheres não está relacionada somente aos sintomas percebidos durante o dia. Os pesquisadores também encontraram diferenças nos padrões observados durante os exames do sono. Entre mulheres, especialmente antes da menopausa, podem ocorrer mais episódios de hipopneia, eventos respiratórios concentrados no sono REM e despertares relacionados ao esforço respiratório.

Essas características podem não ser completamente representadas pelo índice tradicional utilizado para classificar a gravidade da apneia, o índice de apneia-hipopneia (IAH). Por esse motivo, os autores defendem que a avaliação da fragmentação do sono e de outros indicadores fisiológicos também seja considerada na investigação.

Apneia pode estar relacionada a outros problemas

A identificação tardia preocupa porque a apneia não afeta apenas a qualidade do descanso. A condição está associada a consequências cardiovasculares e metabólicas, e a revisão aponta diferenças importantes conforme a fase da vida. Entre mulheres antes da menopausa, a apneia aparece relacionada a condições como depressão, síndrome metabólica e síndrome dos ovários policísticos.

Depois da menopausa, hipertensão e diabetes aparecem com maior frequência entre as mulheres com apneia, aumentando a preocupação com o risco cardiometabólico nesse grupo.

Isso não significa que a apneia seja a causa direta de todos esses problemas. As associações observadas reforçam, porém, a importância de reconhecer o distúrbio e avaliar adequadamente cada paciente.

Por que o diagnóstico pode demorar?

A demora pode resultar da combinação de vários fatores. Primeiro, existe uma diferença na maneira como os sintomas são percebidos. Depois, algumas manifestações podem ser confundidas com outras condições ou com situações comuns do cotidiano. Também há limitações nos questionários utilizados para identificar pessoas que deveriam realizar uma investigação mais detalhada.

Outro ponto está na própria percepção da paciente. Se ela não ronca ou não percebe interrupções respiratórias durante a noite, pode não imaginar que exista um problema relacionado à respiração enquanto dorme. A revisão destaca que essa combinação contribui para atrasos no encaminhamento para clínicas especializadas em sono.

Investigação precisa considerar os sintomas apresentados

A identificação da apneia depende da avaliação clínica e, quando indicada, de exames capazes de acompanhar o funcionamento do organismo durante o sono.

Por isso, informar ao profissional de saúde todos os sintomas pode ser importante. Cansaço persistente, sono que não proporciona sensação de descanso, insônia, dificuldade de concentração, dores de cabeça ao acordar e alterações de humor podem fazer parte do quadro e merecem ser considerados em conjunto.

A pesquisa publicada em 2026 também destaca a necessidade de desenvolver ferramentas de triagem mais adequadas às características apresentadas pelas mulheres. Os autores defendem uma abordagem que leve em consideração diferenças entre os sexos desde a suspeita até a escolha do tratamento.

Apneia do sono não deve ser associada apenas ao ronco

A principal mensagem da revisão é que a ausência do quadro clássico não significa necessariamente ausência da doença. Uma mulher pode não apresentar o ronco como principal reclamação e ainda assim ter episódios repetidos de alteração respiratória durante o sono. Da mesma forma, sintomas durante o dia podem ser mais evidentes do que aquilo que acontece à noite.

Por isso, dificuldades persistentes relacionadas ao sono precisam ser avaliadas considerando o conjunto de manifestações, especialmente quando o descanso não parece restaurador ou quando o cansaço começa a interferir na rotina.

A revisão científica publicada em março de 2026 mostra que reconhecer essas diferenças pode ajudar a diminuir o número de mulheres que convivem com apneia sem saber da existência do distúrbio. Mais do que procurar apenas o ronco ou a sonolência excessiva, a investigação precisa considerar também sintomas como insônia, fadiga, alterações de humor, problemas de concentração e dores de cabeça matinais.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Matheus Chaves

Matheus Chaves

Jornalista e produtor de conteúdo com mais de nove anos de experiência em comunicação digital, produção editorial e jornalismo online.

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