A temperatura em que se consome chá ou café importa mais para o risco de câncer de esôfago do que a própria bebida.
Pesquisadores da Unidade de Epidemiologia do Câncer da Universidade de Oxford descobriram que beber esses líquidos muito quentes triplica o risco da doença, independentemente da bebida escolhida.
Publicado no International Journal of Cancer, o estudo acompanhou 977.282 pessoas e registrou 2.348 casos de câncer de esôfago durante o monitoramento.
Quem bebia chá ou café em temperaturas classificadas como “muito quentes” teve 3,17 vezes mais risco de desenvolver carcinoma de células escamosas do esôfago (SCC), uma das formas mais agressivas da doença, do que quem consumia as mesmas bebidas em temperatura morna.
Temperatura do café ou chá pode ser mais importante do que a bebida para o risco de câncer
Bebidas acima de 65°C provocam queimaduras repetidas na camada interna do esôfago.
Esse dano contínuo enfraquece o tecido e compromete sua integridade, criando condições para que agentes nocivos estimulem o surgimento de tumores.
Cada exposição ao calor extremo agride as células do esôfago e abre caminho para a proliferação anormal.
Quanto mais frequente a exposição, maior o risco acumulado, e por isso, o volume diário de consumo também é decisivo.
Quem consome seis ou mais xícaras diárias de bebidas quentes tem risco 71% maior de desenvolver a doença do que os consumidores ocasionais.
A combinação de calor extremo com alto consumo aumenta o risco. Por isso, reduzir a temperatura não basta se o volume continuar alto: os dois fatores contribuem para danificar progressivamente o esôfago.
O resultado é relevante em regiões onde o consumo de bebidas muito quentes faz parte da cultura.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, o número de casos novos de câncer de esôfago é de duas a cinco vezes maior que no restante do país, provavelmente em associação com o consumo frequente de chimarrão em altas temperaturas.
O que a ciência já sabia sobre as bebidas e como reduzir o risco?
Estudos científicos apontam que, no câncer de esôfago, o fator de risco é a temperatura, não as substâncias presentes nas bebidas.
O consumo de café não apresenta risco comprovado de câncer de mama, próstata e pâncreas e pode ter efeito protetor para o fígado e o endométrio quando ocorre em temperatura moderada.
A boca não sofre o mesmo dano que o esôfago porque bebidas muito quentes costumam ser consumidas com canudos ou por sucção, limitando o contato prolongado do líquido com a cavidade bucal.
Para reduzir o risco, é preciso aguardar alguns minutos após preparar a bebida, até que ela esfrie.
Essa mudança pode contribuir para a prevenção da doença, principalmente entre quem consome bebidas quentes regularmente.
Segundo estimativas de pesquisadores, reduzir a temperatura das bebidas para níveis moderados poderia prevenir aproximadamente 14% dos casos de carcinoma escamoso de esôfago.
A mudança exige apenas alguns minutos e tem potencial relevante de prevenção.





