Há sete décadas, Almería, no sudeste da Espanha, tinha solo seco, vegetação rasteira e propriedades pequenas.
A região recebe chuva em apenas 54 dias por ano, em média, o que tornava a agricultura tradicional praticamente inviável.
Hoje, cerca de 33 mil hectares cobertos por estufas transformaram a área árida em um dos maiores polos agrícolas do continente europeu.
O complexo, batizado de “Mar de Plástico”, ocupa uma área tão extensa que pode ser visto em imagens de satélite.
Um deserto foi coberto por plástico há 70 anos e hoje a região produz frutas e verduras em larga escala
A virada aconteceu na década de 1950, quando produtores locais precisaram driblar a falta de água e o clima hostil.
A saída veio da exploração de reservas subterrâneas combinada com técnicas de cultivo copiadas dos Países Baixos.
Em vez do vidro usado nas estufas holandesas, os agricultores optaram pelo plástico, material mais barato e resistente ao vento constante da costa espanhola.
Uma camada de areia espalhada sobre a terra ajudou a reter a umidade.
Com o tempo, foram incorporados a irrigação por gotejamento, o cultivo hidropônico e o controle biológico de pragas.
Nos últimos 25 anos, a área se expandiu. Hoje, cerca de 12 mil propriedades agrícolas ocupam essa faixa do território.
Tomate, pimentão, pepino, melancia, melão, abobrinha e berinjela lideram as plantações.
Somente os pimentões respondem por 913 mil toneladas do total colhido, um volume que mostra a especialização da área em determinadas culturas.
A produção anual passa de 4 milhões de toneladas, e mais da metade é exportada para abastecer mercados europeus.
Alemanha, Reino Unido, França e Itália recebem a maior parte das exportações, enquanto uma parcela menor segue para os Estados Unidos.
A cadeia agrícola sustenta milhares de postos de trabalho e se tornou a espinha dorsal da economia da província.
Trabalho migrante e condições precárias, além de um efeito inesperado no clima local
Milhares de trabalhadores migrantes atuam nas estufas.
Organizações que acompanham as condições de trabalho relatam casos de moradias precárias, falta de infraestrutura básica e problemas no ambiente de trabalho.
Entidades do setor agrícola contestam parte dessas acusações, afirmam que as condições melhoraram ao longo dos anos e também destacam o número de trabalhadores estrangeiros contratados formalmente na região.
A cobertura plástica gerou uma consequência inesperada nos anos 1950.
As superfícies claras das estufas refletem mais luz solar do que a paisagem original e alteram a temperatura na área coberta.
A Universidade de Almería registrou queda média de 0,3°C por década entre 1983 e 2006 na região.
Outro levantamento atribuiu ao mesmo fenômeno de reflexão solar uma redução anual próxima de 0,25°C.
O efeito permanece restrito à região e não transforma as estufas em uma solução para o aquecimento global, mas mostra que uma mudança provocada pela atividade humana pode alterar variáveis climáticas mensuráveis em um território específico.





