Em outubro de 1957, a remoção acidental de telas de contenção permitiu a fuga de 26 colônias de abelhas africanas (Apis mellifera scutellata), o que, meio século depois, se tornou um dos episódios mais marcantes da história da apicultura brasileira.
Esse episódio transformou completamente a criação de abelhas no Brasil, pois as “fugitivas” cruzaram com populações europeias já estabelecidas no país e originaram as abelhas africanizadas, uma espécie híbrida mais produtiva e resistente que revolucionou o setor.
O apiário em questão pertencia ao geneticista Warwick Estevam Kerr, que em 1956 viajou à África para coletar rainhas de abelhas mais adaptadas ao clima tropical. O cientista coletou 133 rainhas para trazer de volta; no entanto, apenas 47 sobreviveram à viagem e às etapas iniciais do experimento.
O projeto era financiado pela Fundação Rockefeller e pelo Prêmio Nacional de Genética André Dreyfuss, e tinha como objetivo desenvolver linhagens capazes de superar a baixa produtividade das abelhas italianas puras, que predominavam no país e produziam duas a três vezes menos mel.
O erro que mudou tudo
A fuga não foi planejada. Um apicultor visitante, ao visitar o apiário experimental em Rio Claro, no interior de São Paulo, removeu as telas que impediam a passagem das rainhas, acreditando que elas atrapalhavam o movimento das abelhas. Sem as barreiras, 26 colônias africanas escaparam para a mata nos arredores.
Os descendentes das abelhas fugitivas cruzaram com populações europeias e produziram um híbrido perfeitamente adaptado ao ambiente tropical brasileiro: mais resistente, de alta produção de mel e, como contrapartida, mais defensivo.
De acordo com especialistas, a adaptação bem-sucedida elevou bastante a produção de mel no Brasil, contribuindo para que o país se tornasse o maior produtor de mel da América.
O fenômeno não se limitou ao território brasileiro: as abelhas africanizadas se espalharam por toda a América do Sul e, em 1985, chegaram à América do Norte, consolidando sua presença em todo o continente.





