O furacão Melissa segue provocando destruição no Caribe e gerando alertas em toda a região. Após devastar a Jamaica na última terça-feira (28), o sistema avançou sobre Cuba na quarta (29), impulsionado por águas oceânicas excepcionalmente quentes.
Em poucas horas, a tempestade se intensificou e alcançou a categoria 5, o nível máximo na escala Saffir-Simpson, caracterizado por ventos extremos e potencial de destruição catastrófica.
Um dos furacões mais fortes do Atlântico
De acordo com a agência AFP, na manhã de terça-feira o furacão Melissa apresentava ventos de 110 km/h. Em apenas 24 horas, a velocidade dobrou para 225 km/h, tornando-o um dos furacões de intensificação mais rápida nesta temporada, o quarto caso semelhante registrado no Atlântico em 2025.
“O que chama a atenção não é o número de furacões, mas a velocidade com que se tornam extremamente potentes”, explicou Kerry Emanuel, meteorologista e climatologista do MIT.
Segundo o especialista, embora não seja possível atribuir um evento isolado diretamente ao aquecimento global, as tendências de longo prazo apontam para mudanças significativas no comportamento dessas tempestades.
“Esse tipo de intensificação rápida pode ser uma marca coletiva das mudanças climáticas”, completou.
Calor recorde do oceano alimenta a tempestade
Dados da Climate Central mostram que as águas do Atlântico onde o furacão Melissa se formou estavam 1,4°C acima da média histórica, um cenário 500 vezes mais provável de ocorrer devido à ação humana.
“O aquecimento do mar fornece mais energia para as tempestades. Estimamos que furacões como o Melissa possam gerar entre 25% e 50% mais chuva por causa do aquecimento global”, explicou o climatologista Daniel Gilford.
A lentidão da tempestade, que se desloca a apenas 5 km/h, agrava ainda mais os impactos. Em algumas áreas da Jamaica, os acumulados de chuva podem chegar a 65 centímetros, provocando inundações severas e deslizamentos de terra.
Uma nova era de tempestades estagnadas
Para a meteorologista Jill Trepanier, da Universidade Estadual da Louisiana (EUA), o furacão Melissa representa “uma ameaça constante e recorrente”.
Ela explica que tempestades desse tipo costumam perder força à medida que misturam águas frias das camadas profundas do oceano, o que não ocorreu desta vez. “Melissa se intensificou no mesmo ponto por dias, o que indica que o calor do oceano penetrou em grandes profundidades, impedindo o resfriamento natural. É uma situação assustadora e sem precedentes”, afirmou.
O ex-climatologista da NOAA, James Kossin, também observou um aumento na frequência dessas tempestades lentas. Segundo ele, o rápido aquecimento das regiões polares, conhecido como amplificação ártica, pode estar enfraquecendo os ventos que normalmente deslocam os ciclones, fazendo-os permanecer mais tempo sobre uma mesma região.
Impactos no Caribe e reflexos no Brasil com o furacão Melissa
Com ventos de até 300 km/h e pressão mínima de 892 hPa, o furacão Melissa já figura entre os mais intensos da história do Atlântico Norte. O sistema provocou mortes, destruição e evacuações em massa na Jamaica e em Cuba, levando ao fechamento de portos, aeroportos e serviços essenciais.
Imagens captadas por “caçadores de furacões” da NOAA mostram o olho do ciclone com impressionante nitidez, uma calmaria aparente cercada por paredes de nuvens violentas e rajadas devastadoras.
Embora a Melissa não atinja diretamente o Brasil, seus efeitos indiretos já começam a ser sentidos no Norte do país. A circulação atmosférica associada ao furacão, somada ao aquecimento anômalo da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), deve provocar chuvas intensas e frequentes em estados como Amapá, Pará, Roraima e Amazonas.
As consequências práticas incluem risco de alagamentos, ressaca no litoral e impactos na agricultura e na energia, especialmente com o solo encharcado e a dificuldade de escoamento de safras.
Um alerta para o futuro
Os especialistas são unânimes: o furacão Melissa não é um evento isolado, mas um sinal das novas condições climáticas globais.
Com mares cada vez mais quentes, a tendência é de menos ciclones por temporada, porém mais intensos e destrutivos. “Eventos como o Melissa mostram que estamos diante de uma nova realidade climática”, conclui Trepanier. “O desafio agora é adaptar sociedades inteiras para resistir a ela.”





