A farmacêutica Ana Helena Ulbrich, natural de Capão da Canoa (RS), ganhou destaque internacional ao ser incluída na primeira lista da revista Time com as cem pessoas mais influentes do mundo da inteligência artificial (IA). Ao lado de nomes como Elon Musk, Sam Altman e Mark Zuckerberg, a brasileira aparece não por comandar uma bilionária empresa de tecnologia, mas por ter criado, com o irmão Henrique Dias, uma solução inovadora e sem fins lucrativos para reduzir erros em prescrições médicas no Brasil.
IA ajuda farmacêuticos a detectar erros e evitar riscos em prescrições
O projeto, batizado de NoHarm, nasceu em 2019 a partir da experiência de Ulbrich como farmacêutica no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, onde enfrentava a rotina de analisar centenas de prescrições médicas por dia em poucos minutos. Incomodada com a possibilidade de falhas que poderiam comprometer a saúde dos pacientes, ela compartilhou o problema com o irmão, então doutorando em informática. Juntos, desenvolveram um algoritmo capaz de identificar doses incorretas, interações perigosas entre medicamentos e inconsistências nos prontuários.
Com apoio inicial de prêmios de empresas como Google, a iniciativa se transformou em um instituto, em vez de uma startup convencional. Hoje, a NoHarm conta com uma equipe de cerca de 20 pessoas e já está presente em mais de 200 hospitais brasileiros, processando 5 milhões de prescrições mensais. De acordo com o instituto, mais de 2,5 milhões de pacientes já foram beneficiados pela ferramenta, que é oferecida gratuitamente aos hospitais do SUS, enquanto instituições privadas pagam uma taxa para utilizá-la.
Diferente de muitas empresas do setor de IA, o modelo da NoHarm rejeitou investimentos de risco para manter seu propósito social. “O caminho comum é criar uma empresa para ficar milionário. Nós nunca quisemos isso”, afirmou Ulbrich em entrevista. Essa decisão permitiu que o sistema fosse disponibilizado com código aberto, estimulando que outros desenvolvedores criem soluções semelhantes.
Com o reconhecimento da Time e apoio de fundações internacionais, como a Bill & Melinda Gates Foundation, o trabalho dos irmãos agora ganha repercussão global. Ulbrich tem sido convidada para conferências nos EUA, Egito e Emirados Árabes, sempre reforçando que a inteligência artificial deve servir como apoio ao profissional de saúde, nunca como substituta.
“É uma ferramenta para dar segurança e agilizar processos. A decisão final precisa ser humana, ética e responsável”, resume a pesquisadora, que hoje celebra ver uma tecnologia criada no Brasil transformar a vida de milhões de pacientes.





