O Brasil tem mais de 13 mil agências lotéricas espalhadas pelo país. Em meio a esse mercado pulverizado, uma lotérica localizada em Fortaleza (CE) chama a atenção por um feito incomum: liderar o ranking nacional de apostas por bolões por 73 meses consecutivos, transformando um negócio tradicional em um verdadeiro fenômeno financeiro.
Fundada em 2005, a Loteria Aldeota viveu por anos como uma empresa de pequeno porte. A virada veio a partir de uma combinação improvável de crise pessoal, visão estratégica e inovação. À frente do negócio está Alessandro Montenegro, empresário cearense natural de Juazeiro do Norte, que alcançou o auge da carreira depois dos 50 anos.
Da crise à virada milionária
Antes de se dedicar integralmente à lotérica, Alessandro mantinha um negócio paralelo no setor de máquinas para construção de estradas. Em 2019, enquanto prestava serviço no Pará, uma chuva torrencial interrompeu os trabalhos e deixou equipamentos ilhados, comprometendo o sustento da família.
“Pensei: como vou sustentar minha família agora?”, relembra. Diante do cenário, decidiu abandonar o outro ramo e apostar tudo na lotérica, decisão que mudaria sua trajetória.
Poucos meses depois, em fevereiro de 2020, um bolão da Mega-Sena vendido na Loteria Aldeota acertou os números de um prêmio acumulado superior a R$ 200 milhões, criando 35 novos milionários. Cada vencedor levou cerca de R$ 3 milhões, em uma das maiores premiações da história fora da Mega da Virada.
Pandemia acelera inovação
A visibilidade nacional veio acompanhada de um novo desafio: o lockdown imposto pela pandemia da Covid-19. Em vez de recuar, Alessandro enxergou ali uma oportunidade. Investiu pesado em bolões por delivery, permitindo que apostadores fizessem jogos sem sair de casa e recebessem os bilhetes no domicílio.
Outro serviço que cresceu rapidamente foi a custódia dos bilhetes, guardados em cofres da própria lotérica. A confiança conquistada foi tanta que alguns dos ganhadores do bolão histórico optaram por deixar os bilhetes sob responsabilidade da empresa.
“Alguns clientes viajaram de outros estados só para buscar o bilhete. Outros decidiram me dar voluntariamente parte do prêmio como agradecimento. Reinvesti tudo no negócio”, conta o empresário.
Atendimento personalizado e confiança
O crescimento acelerado exigiu estrutura. Hoje, a Loteria Aldeota emprega cerca de 100 pessoas, sendo 30 apenas no atendimento ao público. A estratégia passa por relacionamento próximo, personalização e criação de hábitos de aposta entre os clientes.
Outro pilar do sucesso está na publicidade. A empresa investe fortemente em mídia tradicional, como rádio e TV. “Em tempos de fake news, as pessoas confiam muito nesses meios”, afirma Montenegro.
Segundo ele, o avanço das plataformas de apostas online não reduziu a procura pelas loterias oficiais. “Ninguém fica milionário com bet. Só com loteria formal”, diz.
Faturamento milionário sem ganhar o prêmio
Os resultados impressionam. Em 2025, a Loteria Aldeota registrou faturamento de R$ 57 milhões, crescimento superior a 20% em relação ao ano anterior. Ao todo, clientes da casa já somaram mais de R$ 155 milhões em prêmios.
O empresário divide hoje a gestão com o filho, Lucas Montenegro, e se tornou referência no setor. Conhecido como o “rei do bolão”, recebe lotéricos de todo o Brasil interessados em aprender o modelo de negócio.
“Quanto mais cabra, mais cabrito”, brinca Alessandro, ao defender o crescimento do setor.
Bolões e apostas altas
O tíquete médio dos clientes gira em torno de R$ 350 por mês, valor que pode ultrapassar R$ 600 nos períodos que antecedem a Mega da Virada. O modelo aumenta significativamente as chances de premiação em jogos como Mega-Sena e Lotofácil.
Na última Mega da Virada, que pagou mais de R$ 1 bilhão, o prêmio principal não saiu para a lotérica, mas um dos bolões acertou a quina. “Faltou só o número 13”, resume Alessandro.
Mesmo sem nunca ter levado o prêmio máximo, a Loteria Aldeota prova que, no mundo das apostas, organização, confiança e estratégia também rendem milhões.





