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Cientistas brasileiros querem entender se Ozempic e Mounjaro modificam o cérebro de quem usa

Por Matheus Chaves
14/06/2026
Medicamento

Imagem: Jcomp/Magnific

Os medicamentos Ozempic e Mounjaro ficaram conhecidos principalmente pelo papel no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. No entanto, uma nova frente de pesquisa por cientistas brasileiros está chamando a atenção da ciência: a possibilidade de que essas medicações provoquem mudanças diretas no funcionamento do cérebro e ofereçam benefícios que vão além da perda de peso.

É justamente essa hipótese que pesquisadores brasileiros estão investigando. O objetivo é compreender se os chamados agonistas de GLP-1, grupo ao qual pertencem a semaglutida (Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro), podem exercer um efeito protetor sobre estruturas cerebrais relacionadas à memória, cognição e controle do comportamento alimentar.

O estudo, intitulado de Tirzepatida versus semaglutida para a prevenção de comprometimento cognitivo leve, demência e doença de Alzheimer em diabetes tipo 2: um estudo de coorte retrospectivo no mundo real, foi publicado recentemente no Journal of Diabetes and Its Complications.

O que os pesquisadores brasileiros descobriram

A investigação foi conduzida com base em registros eletrônicos de saúde de pacientes com diabetes tipo 2. Os pesquisadores compararam pessoas que iniciaram tratamento com semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, com pacientes que passaram a utilizar tirzepatida, substância presente no Mounjaro.

Após analisar dezenas de milhares de casos e ajustar fatores clínicos e demográficos, os cientistas observaram uma diferença interessante. Os usuários de tirzepatida apresentaram menor incidência de comprometimento cognitivo leve em comparação aos pacientes que utilizaram semaglutida.

Esse resultado chamou a atenção porque o comprometimento cognitivo leve é frequentemente considerado uma etapa intermediária entre o envelhecimento normal e quadros mais graves de declínio mental.

No entanto, quando os pesquisadores avaliaram diagnósticos de demência e doença de Alzheimer, os resultados se mostraram menos consistentes. Algumas análises sugeriram uma possível tendência de redução de risco, mas os dados não foram suficientemente robustos para permitir conclusões definitivas.

Talvez a pergunta sobre Alzheimer esteja sendo feita no momento errado

Um dos pontos centrais levantados pelos pesquisadores envolve o estágio da doença analisado nos estudos. Nos últimos anos, grandes ensaios clínicos testaram a semaglutida em pacientes que já apresentavam Alzheimer em fase inicial. A expectativa era verificar se o medicamento seria capaz de desacelerar a perda cognitiva. Os resultados, porém, ficaram abaixo do esperado e não demonstraram benefícios clínicos relevantes em comparação ao placebo.

Essa situação levou parte da comunidade científica a considerar outra possibilidade: talvez esses medicamentos não sejam capazes de reverter ou frear uma doença já estabelecida, mas possam atuar antes que os danos cerebrais se tornem significativos.

A lógica segue um raciocínio simples. O Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas costumam se desenvolver ao longo de décadas. Quando os sintomas começam a aparecer, alterações biológicas importantes já estão em andamento há muitos anos. Nesse cenário, qualquer intervenção tende a encontrar um processo bastante avançado.

Por outro lado, fases mais precoces, como o comprometimento cognitivo leve, podem representar uma janela de oportunidade para influenciar fatores relacionados à inflamação, resistência à insulina, circulação sanguínea e metabolismo cerebral.

Por que Mounjaro e Ozempic não funcionam exatamente da mesma forma

Outro aspecto que desperta interesse dos pesquisadores está relacionado às diferenças entre os próprios medicamentos. Embora ambos pertençam à classe das terapias baseadas em incretinas, eles não atuam de maneira idêntica. A semaglutida exerce sua ação principalmente por meio dos receptores de GLP-1. Já a tirzepatida atua simultaneamente em duas vias hormonais: GLP-1 e GIP.

Na prática, isso significa que os efeitos biológicos podem não ser exatamente os mesmos. Estudos experimentais sugerem que essas vias estão envolvidas em processos ligados à inflamação, ao metabolismo energético das células nervosas, à comunicação entre neurônios e até mesmo à sobrevivência celular.

O que a pesquisa realmente significa

Os próprios autores destacam que o estudo não demonstra que Mounjaro previne Alzheimer nem que Ozempic ou outros medicamentos semelhantes devam ser utilizados para proteger a memória.

Por se tratar de uma análise observacional baseada em dados do mundo real, os resultados identificam associações estatísticas, mas não estabelecem uma relação direta de causa e efeito.

Ainda assim, o trabalho reforça uma mudança importante na forma como a ciência vem entendendo o envelhecimento cerebral. Cada vez mais, fatores como obesidade, diabetes, pressão arterial, saúde cardiovascular, atividade física e qualidade do sono são vistos como componentes de um mesmo sistema biológico interligado.

Dessa forma, compreender como o metabolismo influencia o cérebro pode se tornar uma das principais frentes de pesquisa na busca por estratégias capazes de reduzir o risco de declínio cognitivo nas próximas décadas.

Ainda não está claro se essas diferenças serão capazes de produzir impactos clínicos relevantes sobre a saúde cerebral. Porém, os resultados observados indicam que futuras pesquisas talvez precisem avaliar cada medicamento individualmente, em vez de considerar toda a classe terapêutica como um grupo homogêneo.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Matheus Chaves

Matheus Chaves

Jornalista e produtor de conteúdo com mais de nove anos de experiência em comunicação digital, produção editorial e jornalismo online.

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