Por décadas vistos apenas como um problema odontológico, os dentes do siso agora ganham status de “mina de ouro” para a ciência. Pesquisadores da Universidade do País Basco, na Espanha, descobriram que a polpa dentária dos terceiros molares abriga células-tronco com alto potencial regenerativo, capazes de formar neurônios, ossos, cartilagens e até tecido cardíaco.
O estudo foi liderado pelo professor Gaskon Ibarretxe, especialista em biologia celular e histologia, e reforça o papel dos sisos na chamada medicina regenerativa.
Potencial para cérebro e coração
As células-tronco encontradas na polpa do siso são classificadas como mesenquimais e possuem origem na crista neural, a mesma estrutura embrionária que dá origem ao sistema nervoso. Isso explica a facilidade com que podem se transformar em neurônios com atividade elétrica semelhante à dos circuitos cerebrais humanos.
Em testes laboratoriais, os cientistas observaram ainda a capacidade dessas células de formar colágeno, cálcio e estruturas organizadas, apontando potencial no tratamento de osteoartrite, lesões articulares e fraturas. Em modelos com camundongos, também houve melhora na função cardíaca em casos de insuficiência.
Vantagens e janela de oportunidade
Diferentemente da medula óssea, cuja coleta é invasiva e dolorosa, a extração do siso já faz parte da rotina odontológica. Além disso, como as células pertencem ao próprio paciente, o risco de rejeição é praticamente inexistente.
Estima-se que cerca de 10 milhões de dentes do siso sejam extraídos todos os anos no mundo, geralmente no fim da adolescência, fase em que as células ainda apresentam alta capacidade de replicação e baixa degradação genética.
Empresas de biotecnologia já oferecem serviços de coleta e armazenamento da polpa dentária, funcionando como uma espécie de “seguro biológico” para tratamentos futuros.
Impacto na medicina
A descoberta pode reduzir a dependência de doadores e ampliar o acesso a terapias personalizadas. Ao transformar um procedimento comum em fonte estratégica de células-tronco, a ciência aponta para um futuro em que aquilo que antes era descartado pode se tornar peça-chave na regeneração de tecidos e no tratamento de doenças complexas.





