O acirramento da disputa internacional por minerais considerados estratégicos voltou ao centro do debate geopolítico após recentes movimentos dos Estados Unidos. O ataque norte-americano à Venezuela, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e as declarações do ex-presidente Donald Trump sobre a anexação da Groenlândia reacenderam alertas sobre a corrida por recursos naturais essenciais para a transição energética e para a indústria militar.
Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, Trump voltou a classificar a Groenlândia como um território estratégico para a segurança dos Estados Unidos. Embora tenha citado a necessidade de conter a influência da Rússia e da China no Ártico, especialistas apontam que o principal interesse está na riqueza mineral da região.
A riqueza escondida sob o “pedaço de gelo”
De acordo com o geólogo Adam Simon, da Universidade de Michigan, a Groenlândia pode concentrar até 25% das reservas globais de terras raras. Além disso, estimativas indicam a presença de ao menos 1,5 milhão de toneladas desses elementos, além de lítio, cobre, urânio, níquel, cobalto, ouro e petróleo.
Esses minerais são considerados fundamentais para a fabricação de baterias, painéis solares, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e armamentos de alta tecnologia, como drones, sistemas de radar e caças militares.
Brasil no centro do tabuleiro geopolítico
A disputa não se limita ao território europeu. O Brasil, que possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, passou a ser visto como peça-chave nesse cenário. Minas Gerais, em especial, concentra jazidas estratégicas em regiões como Araxá, Poços de Caldas e Caldas, além de ser o principal polo mundial de produção de nióbio.
Atualmente, o país controla mais de 98% das reservas conhecidas desse mineral, amplamente utilizado em ligas metálicas de alta resistência e aplicações industriais e militares. Representantes dos Estados Unidos já teriam procurado a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) para discutir possíveis parcerias na extração de terras raras.
Alerta para a soberania nacional
Para a pesquisadora Ana Paula Lemes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o controle de minerais críticos deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a integrar estratégias de segurança nacional das grandes potências.
“O padrão observado anteriormente no petróleo agora se intensifica com as terras raras. Países do Sul Global que concentram esses recursos tornam-se alvos prioritários de pressão geopolítica”, afirma. Segundo a especialista, o Brasil detém cerca de 21 milhões de toneladas de elementos de terras raras, o que amplia sua relevância internacional.
Minas Gerais e o interesse estrangeiro
Além das terras raras, Minas Gerais também é alvo de interesse por outros minerais, como lítio, grafite, manganês, níquel e vanádio. O Vale do Jequitinhonha, apelidado pelo governo estadual de “Vale do Lítio”, tornou-se um dos principais focos dessa disputa.
Para Luiz Paulo Siqueira, dirigente nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), o histórico de interferência dos Estados Unidos na América Latina reforça o temor de novas pressões políticas e econômicas. Segundo ele, documentos divulgados pelo Wikileaks já apontavam o interesse norte-americano no controle das jazidas brasileiras de nióbio.
Exportar ou desenvolver?
Especialistas defendem que o Brasil precisa superar o modelo baseado na exportação de commodities brutas. Ana Paula Lemes afirma que o país deveria investir na verticalização da produção, agregando valor aos minerais extraídos e fortalecendo cadeias industriais nacionais.
“O desafio é deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e passar a produzir itens de alto valor agregado, garantindo desenvolvimento econômico e soberania tecnológica”, avalia.
Críticas à política mineral em Minas
No âmbito estadual, críticas recaem sobre a condução da política mineral em Minas Gerais. Lideranças do setor apontam privatizações recentes e flexibilizações em licenciamentos ambientais como fatores que ampliam a vulnerabilidade do estado frente ao capital estrangeiro.
Entre os exemplos citados estão a venda da participação estatal na Companhia Brasileira de Lítio (CBL) e a privatização da Codemig, empresa responsável pelas reservas de nióbio de Araxá. Segundo críticos, essas decisões podem enfraquecer a capacidade do estado de controlar seus próprios recursos estratégicos.





