Gravidez, rotina e uma prática aparentemente inofensiva mudaram a vida de Suzanne Segal em 1991. Ao sair de uma clínica para gestantes, a americana sentiu uma súbita pressão nos ouvidos, semelhante à de um avião em decolagem. Logo depois, descreveu a sensação de que seu “eu” interior havia se deslocado para fora do corpo, observando-a agir em piloto automático. O episódio marcou o início de um transtorno de despersonalização crônica, no qual a pessoa se sente desconectada de si mesma.
A experiência de Segal não é isolada. Embora a meditação seja amplamente associada ao bem-estar, especialistas alertam que nem sempre seus efeitos são positivos. Pesquisas ainda raras, mas em expansão, apontam que práticas intensas podem desencadear ansiedade, alucinações, paranoia e crises dissociativas.
Efeitos adversos em estudo
Uma pesquisa da Universidade do Leste de Londres (2014) mostrou que 20% dos praticantes relataram episódios dissociativos. Já um estudo da Universidade Brown (2017) acompanhou 70 meditadores, dos quais 82% relataram medo ou paranoia, 62% tiveram distúrbios do sono, 42% alucinações e 47% reviveram memórias traumáticas.
Para a psicóloga e neurocientista Willoughby Britton, que coordena um centro de apoio a meditadores em Rhode Island, os chamados “estados mentais desafiadores” são mais comuns do que se imagina. Ela própria enfrentou uma crise durante um retiro e hoje estuda os efeitos negativos da prática.
Sabedoria antiga ignorada
Pesquisadores como Tiago Tatton, especialista em mindfulness, afirmam que o problema está na forma como o Ocidente adotou a prática, simplificada, comercializada e descolada das tradições budistas e hinduístas, que sempre alertavam para os riscos. No budismo tibetano, por exemplo, os efeitos colaterais são conhecidos como distúrbio de lung, descrito em textos antigos como crises de pânico ou estados de despersonalização.
Apesar do caráter perturbador, parte dos estudiosos vê nessas crises uma oportunidade. Para o psiquiatra Russell Razzaque, autor de Breaking Down is Waking Up, a sensação de dissolução do “eu” pode ser encarada não como colapso, mas como um despertar existencial.
O outro lado do silêncio
Seja interpretado como risco ou como transformação espiritual, o fato é que a meditação não é sinônimo automático de relaxamento. Seus efeitos adversos ainda são pouco discutidos, mas ganham espaço à medida que mais praticantes relatam experiências intensas, algumas aterrorizantes.





