Apesar de décadas de pesquisa, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda desafia a ciência. Apenas uma pequena parcela dos casos tem origem identificável por exames, o que abre espaço para teorias equivocadas, desinformação e promessas infundadas de cura — especialmente nas redes sociais.
A confusão aumenta quando figuras públicas fazem declarações sem respaldo científico. Em setembro, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o uso de paracetamol na gestação “causaria” autismo. A OMS classificou a fala como incorreta, e o Ministério da Saúde brasileiro também repudiou a alegação, alertando para o pânico desnecessário entre gestantes.
O que a ciência realmente sabe — e o que ainda é mistério
Segundo o Censo de 2022 (IBGE), cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de TEA. No mundo, a prevalência é de aproximadamente 1 a cada 127 pessoas. Mesmo assim, a desinformação avança rapidamente: pesquisadores já catalogaram 150 falsas causas atribuídas ao transtorno — como 5G, vacinas e até salgadinhos — e outras 150 falsas “curas”, incluindo métodos perigosos, como ingestão de dióxido de cloro.
A ciência, no entanto, evoluiu. Teorias antigas, como a equivocada “mãe-geladeira” dos anos 1950, foram descartadas após estudos robustos. Um marco foi a pesquisa com gêmeos, em 1977, que demonstrou forte influência genética no TEA.
Hoje, estima-se que 20% a 25% dos casos envolvam mutações raras, embora nenhuma esteja presente em todas as pessoas autistas. O modelo mais aceito é o poligênico e multifatorial, combinando predisposição genética e fatores ambientais — como idade avançada dos pais, infecções na gestação e complicações obstétricas.
As diretrizes atuais priorizam diagnóstico clínico precoce, entre 14 e 16 meses, e avaliações complementares conforme a necessidade. A definição dos níveis de suporte não é recomendada para bebês, já que as demandas mudam com o desenvolvimento.
Não existe cura para o TEA. O tratamento envolve terapias comportamentais, comunicação e integração sensorial, com foco em abordagens multidisciplinares, individualizadas e humanizadas, voltadas à autonomia e qualidade de vida.





