Folhapress
Um estudo inovador publicado na revista Ecology and Evolution transformou latas de salmão esquecidas em arquivos biológicos. Pesquisadores da Universidade de Washington, nos EUA, analisaram o conteúdo de 178 embalagens e descobriram um aumento significativo na presença de um determinado parasita (Anisakis), o que indica recuperação da biodiversidade do oceano.
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As amostras foram coletadas ao longo de 42 anos no Golfo do Alasca e na Baía de Bristol. Foram analisadas latas de 1979 a 2021, doadas pela Seafood Products Association, de Seattle. Como a lata é um ambiente hermeticamente fechado, ela funcionou como um arquivo histórico perfeito, já que o processo de enlatamento preserva a estrutura dos parasitas mesmo após o cozimento.
Ao contrário do que o senso comum sugere, um ecossistema com parasitas é frequentemente mais saudável do que um sem eles. O Anisakis depende de uma cadeia alimentar complexa para sobreviver: ele passa por pequenos crustáceos, peixes e atinge a maturidade em mamíferos marinhos, como baleias e focas. Se há mais parasitas, há mais vida circulando na teia alimentar.
"Todo mundo assume que vermes no salmão são um sinal de que algo deu errado. Mas o ciclo de vida dos anisaquídeos integra muitos componentes da rede alimentar. Vejo a presença deles como um sinal de que o peixe no seu prato veio de um ecossistema saudável", disse Chelsea Wood, professora associada de ciências aquáticas e pesqueiras da Universidade de Washington.
O estudo indica uma resiliência notável dos ecossistemas do Alasca. A estabilidade ou o crescimento dessas populações de parasitas mostra que as funções ecológicas básicas da região ainda estão operantes e capazes de sustentar grandes predadores.
Nem todo salmão foi afetado da mesma forma. O aumento de parasitas foi mais acentuado no salmão-rosado e no salmão-chum, enquanto as populações de salmão-chinook e coho permaneceram estáveis. Isso indica mudanças específicas na forma como cada espécie se alimenta e interage com o ambiente em mutação.
"Os anisaquídeos têm um ciclo de vida complexo que requer muitos tipos de hospedeiros. Ver seus números aumentarem ao longo do tempo, como vimos com o salmão-rosado e o chum, indica que esses parasitas conseguiram encontrar todos os hospedeiros certos e se reproduzir. Isso pode indicar um ecossistema estável ou em recuperação, com hospedeiros adequados em número suficiente", disse Natalie Mastick, autora principal do estudo e pesquisadora de pós-doutorado no Museu Peabody de História Natural da Universidade de Yale.
O aumento do parasita coincide com o sucesso da Lei de Proteção aos Mamíferos Marinhos (MMPA), aprovada pelo Congresso dos EUA em 1972. Com a proibição da caça e a proteção de baleias e leões-marinhos, essas populações cresceram. Como esses animais são os hospedeiros finais dos vermes, o aumento dos parasitas no salmão é, na verdade, um reflexo direto da volta dos gigantes aos oceanos.
Outras explicações possíveis para o aumento incluem o aquecimento das temperaturas ou impactos positivos da Lei da Água Limpa. "Os anisaquídeos só podem se reproduzir nos intestinos de um mamífero marinho, então isso pode ser um sinal de que, durante o período do nosso estudo, os níveis estavam subindo devido a mais oportunidades de reprodução", finaliza Mastick.
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